O marxismo ocidental: Pierre Bourdieu

Posted by recunha abril 12, 2010


Este texto foi escrito pelo professor doutor em sociologia, Fábio Fonseca de Castro e publicado originalmente no blog Hupomnemata em duas partes. Ao utilizar, por favor, cite a fonte e o autor, que é professor da Faculdade de Comunicação da UFPA em Belém, Pará, Brazil. O blog traz informações sobre política, cultura, mídia, literatura, cinema. Web 2.0, novas tecnologias, mídia livre. Como ele próprio explica: "é um Caderno de notas para todas essas coisas e também roteiros de aulas, observações de leituras, comentários, posicionamentos e idéias."
O elemento teórico central da obra de Bourdieu, se me permitem a objetividade, é a “prática”. Por prática, ele entende a vida real e imediata onde se dá o jogo do poder, e não a vida escolástica, conceitual e metafísica, sobre a qual se engendra o pensamento marxista. Vamos direto ao ponto: isso, precisamente, conforma uma herança à esquerda invulgar e ao mesmo tempo gloriosa.
O que Bourdieu nos ensina é que os indivíduos não produzem análises de contexto para, depois, definir suas ações. Eles simplesmente “jogam”. Nossas ações têm sua lógica mais frequentemente no senso prático do que no cálculo racional. Não temos uma consciência “plena” de nossas práticas, não agimos pelo cálculo.
Assim, noções como “espaço social”, “território” ou “poder”, são conformações que não estão presentes na prática, mas sim na percepção escolástica que nós, cientistas sociais, utilizamos para entender e explicar o mundo. Obviamente que essas explicações se racionalizam e se coisificam, passando a ser usadas não apenas por cientistas sociais, mas por toda a sociedade medianamente culta. Porém, sempre se volta para o mesmo ponto de partida: o que acaba valendo é a prática.
É no corpo a corpo que se produzem os efeitos de dominação. É a prática que distingue e exclui, conferindo aos agentes sociais as suas chances de mobilidade no jogo de poder. É ela que define a posição relativa que o sujeito ocupa em relação aos demais.
Para explicar melhor, Bourdieu nos sugere que a prática possui três elementos: o campo, o capital e o habitus. A prática se dá por meio da relação entre habitus e campo, através do capital.
Vamos por partes.
Campo, em síntese, é o contexto onde acontece a prática. Ele tende à reprodução – à reprodução do sistema social tal como ele é – mas também permite rupturas.
Há três formas de estar no campo: Participando da doxa, ou seja, da opinião comum, a opinião dos leigos; participando da ortodoxia, junto com os especialistas, os que falam em nome da doxa ou, enfim, participando da heterodoxia, com os especialistas que rompem com a doxa, questionando a raridade dos bens simbólicos.
A possibilidade de ruptura, ou de transformação do campo dependeria de uma relação entre a heterodoxia e os leigos.
Hum, acho que eu teria muito a falar sobre isso, mas aguardemos o tempo certo...
Passemos ao habitus. Habitus é a disposição mais ou menos permanente a ter um determinado comportamento ou atitude. Na prática, é a lógica do campo. É o próprio movimento de reprodução do campo. É o fundamento das práticas objetivamente classificáveis e,ao mesmo tempo, a própria classificação. Na sua cotidianidade, na sua pré-reflexividade, explica a "mágica" da reprodução social.
O habitus produz os “estilos de vida” e ao fazê-lo, estabelece um sistema de valores, códigos e sinais usados para distinguir os papéis sociais.
No próximo post falarei sobre a noção de capital, em Bourdieu, e sobre a maneira como o capital constitui a relação entre campo e habitus.
 
Parte 2 - O marxismo ocidental 10: Pierre Bourdieu 2

Bourdieu oferece soluções para o problema do conflito social. Em Marx, como se sabe, o conflito social é um conflito de classes. Em Bourdieu é um conflito da prática. Qual a diferença? A seguinte: não apenas Bourdieu, mas a longa tradição do marxismo ocidental critica dois aspectos centrais da teoria marxista: seu determinismo inerente e a generalização da luta de classes como o mecanismo essencial de todo conflito social. Pode-se, com efeito, questionar a obra de Bourdieu em relação a seu desligamento quanto à dimensão determinista do marxismo; porém, os avanços que ele faz em relação ao problema do conflito social são marcantes. 

Diz Bourdieu que, para construir uma teoria do espaço social é necessário romper com quatro aspectos da teoria marxista. 

Em primeiro lugar, romper com a tendência de privilegiar as substâncias, o que equivale a romper com a idéia de que é possível definir nome, limites e membros do grupo social. Isso significa superar a metafísica marxista que, na verdade, está na mente do observador, do cientista, do crítico social, do militante, e não na vida prática. 

Em seguida, romper com a ilusão intelectualista que nos leva a considerar que a “classe”, ou seja, a classificação teórica adotada pelo sábio de esquerda, é uma classe real, um grupo efetivamente mobilizado. 

Em terceiro, a romper com o economicismo, que reduz o campo social ao campo econômico, ignorando as demais formas de capital que existem na sociedade, notadamente o capital social, o capital simbólico, o capital político, o capital cultural. 

Porfim, a romper com o objetivismo, também ele uma forma de intelectualismo, que ignora ou desvaloriza o papel das lutas simbólicas que se dão no corpo social. 

Promovidas essas superações, o espaço social pode ser compreendido como algo que tem muita dimensões, construídas, cada uma delas, por diferentes princípios de diferenciação. Dessa maneira, a posição que os diversos agentes sociais ocupam na vida prática, não pode ser reduzida a uma posição “de classe”, devendo ser observada em seus aspectos multirelacionais. Isso significa dizer que seria um simplismo inócuo reduzir a posição social de alguém à sua condição econômica, ignorando as demais formas, volumes e trajetórias do capital que envolvem aquela pessoa. 

Com isso, Bourdieu quer dizer que o real é também simbólico e que o simbólico é também real. Há dinâmicas de dominação que envolvem os que tem muito capital econômico e o sentido de, por exemplo, “ser patrão”, pode ser algo com bastante valor para uma pessoa, um produtor rural, por exemplo, que possua meios de produção modestos mas que assim seja considerado, num determinado contexto social. 

No marxismo ortodoxo e na maior parte do marxismo-leninismo prevalece a percepção de que há uma espécie de passagem de uma classe-em-si para uma espécie de classe-para-si, algo como uma promoção ontológica que dispõe que o proletariado possui uma existência real, objetiva, em-si, que, maturada pelo processo social, acabaria tomando consciência de sua materialidade objetiva e, por conta disso, acabaria se valorizando subjetivamente (o para-si da consciência), condição para a luta de classes. 

Ora, o que Bourdieu mostra – e a experiência histórica demonstra (veja-se por exemplo, o estranho fato de a primeira revolução ter-se dado num país periférico) - é que esse processo é, de fato, uma interpretação intelectualista da realidade social. 

O pensamento de Bourdieu é uma herança multidimensional à esquerda.

Heranças à Esquerda

Heranças à Esquerda é uma coleção de postagens do Blog Hupomnemata do Prof. Fábio de Castro. Um conjunto de crônicas políticas que procuram identificar as fontes do pensamento "de esquerda", através do mapeamento de autores. A série de posts inclui sub-séries, como "O marxismo soviético" e "O marxismo ocidental". Além disso, há posts complementares, tratando de assuntos análogos. Veja abaixo a relação da série e clique nos links para ler os artigos.

Heranças à Esquerda 23: O marxismo ocidental 6: Antonio Gramsci

Heranças à Esquerda 23: O marxismo ocidental 5: Walter Benjamin
Heranças à Esquerda 22: O marxismo ocidental 4: Herbert Marcuse

Heranças à Esquerda 21: O marxismo ocidental 3: Georg Lukács
Heranças à Esquerda 20: O marxismo ocidental 2: O último esforço
Heranças à Esquerda 19: O marxismo ocidental 1: Passagem para a 3a geração
Heranças à Esquerda 18: Meu ponto de partida
Heranças à Esquerda 17: O marxismo soviético 10: Perestroika e Glastnost
Heranças à Esquerda 16: O marxismo soviético 9: A reforma Gorbatchev
Heranças à Esquerda 15: O marxismo soviético 8: A decadência do modelo
Heranças à Esquerda 14: O marxismo soviético 7: A discussão Liberman
Heranças à Esquerda 13: O marxismo soviético 6: A economia planificada
Heranças à esquerda 12: O marxismo soviético 5: O substitucionismo, herança fatal
Heranças à esquerda 11: O marxismo soviético 4: Mais sobre o comunismo de guerra e a NEP
Heranças à Esquerda 10: O marxismo soviético 3: ...à Nova Política Econômica
Heranças à esquerda 9: O marxismo soviético 2: Da “economia de guerra”...
Heranças à Esquerda 8: O marxismo soviético 1
Heranças à Esquerda 7: Trotsky III
Heranças à Esquerda 6: Trotsky II
Heranças à Esquerda 5: Trotsky I
Heranças à Esquerda 4: O Cristianismo revolucionário
Heranças à Esquerda 3: 1968 II
Heranças à esquerda 2: 1968 I
Heranças à esquerda 1: A política da longa duração

2 comments

  1. Valeu pela postagem. Texto muito legal e apesar de ser simples me ajudou muito a compreender muito o Bourdieu.

     
  2. Obrigada pela visita e pelo "feedback". abrs. Regina

     

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