A construção e a difusão do conhecimento passam por transformações importantes neste início de século. Cada vez mais, o meio digital se afirma como esfera privilegiada de circulação da informação. É o momento de repensarmos a relação entre o leitor e o livro nos (novos) espaços de leitura. O Seminário Mindlin 2010, "O Futuro das Bibliotecas", convida intelectuais e profissionais das comunicações, da arquitetura e das políticas públicas a se reunirem para debater este tema. As experiências e reflexões em torno de diferentes espaços para o livro, diferentes formas do livro e diferentes olhares sobre o livro nos permitirão discutir os caminhos que despontam para os novos significados dessas relações e os novos sentidos das Bibliotecas.

13/10 (QUARTA-FEIRA)

19:30 Sessão de abertura

Homenagem a José Mindlin

Homenagem a István Jancsó

Lançamento da Brasiliana Digital Versão 2.0 

Inscrições: As inscrições são gratuitas e serão realizadas no local e dias do evento.  

Certificados: Os certificados serão emitidos eletronicamente e enviados por e-mail. 

Informações:(11) 3091-1154 / 3091-1195

14/10 (QUINTA-FEIRA)

14:00
Novas Casas: Arquitetura das Bibliotecas

. Ana Paula Megiani — Coordenação
. Angelo Bucci
. Eduardo de Almeida
. Rodrigo Loeb 
 
16:00 Coffee break

16:30
Novas Formas: e-livros

. Edson Gomi — Coordenação
. Matinas Suzuki
. Diego Andrade de Mello
. Susanna Florissi

15/10 (SEXTA-FEIRA)

14:00
Novos Olhares: Leitores nas Bibliotecas Digitais

. Esmeralda Vailati Negrão — Coordenação
. Idelber Avelar
. Roberto Taddei
. Maria Clara Paixão de Sousa

16:00 Coffee break

16:30
Novos Marcos: Políticas Públicas para Acervos Digitais

. Sueli Mara Soares Pinto Ferreira — Coordenação
. Manuel J. Pereira dos Santos
. Samuel Barichello
. Marcos Wachowicz

Fonte: MinC

O Ministério da Cultura e a Fundação Economia de Campinas (Fecamp) acabam de firmar convênio para elaborar um modelo brasileiro de análise da economia da cultura. Levantamentos feitos pelo Banco Mundial e pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI) indicam que cerca de 7% do PIB mundial vêm exatamente da economia da cultura e índice semelhante se verifica no Brasil.
A partir do estudo a ser iniciado até o fim deste ano, será possível compreender os impactos de curto, médio e longo prazos dos investimentos públicos e privados na área.
A avaliação dos impactos da economia da cultura é bastante recente. Os estudos internacionais disponíveis não conseguem dar conta da especificidade brasileira, tanto no que diz respeito à diversidade cultural como à característica da economia em expansão.
“A ampliação desses dados é importante para nos ajudar a formular políticas de estímulo da economia da cultura. O Brasil pode e vai crescer muito se elas estiverem na direção certa e, para isso, temos que investir em dados sobre a economia da cultura”, afirma o ministro da Cultura, Juca Ferreira.
“A economia da cultura no Brasil, hoje, não consegue incorporar nem 20% dos consumidores, com exceção da TV aberta. Acredito que seja possível dobrar a participação da economia da cultura no PIB brasileiro nos próximos cinco anos se forem incorporados corretamente novos empreendedores e consumidores”, estima o ministro.
A pesquisa
A metodologia da pesquisa que será realizada por meio deste acordo deve compreender, por exemplo, o novo tipo de consumidor, que tem renda baixa, mas vem ganhando poder de compra.
O economista Roberto Sabattini, um dos coordenadores da pesquisa, destaca que essa parcela da população representa um grande potencial para o consumo de produtos culturais. “Compreender essa dinâmica é fundamental para a elaboração das políticas públicas para a ampliação do acesso à cultura”, diz.
O grupo responsável pelo estudo pretende ainda criar uma rede de cientistas sobre o tema em todo o país, que deve continuar em atividade mesmo depois do fim do convênio com o Ministério da Cultura. Serão oferecidas, por meio de edital, 72 bolsas de pesquisa divididas em 16 equipes.
A expectativa é que o novo modelo de avaliação fique pronto no final de 2012. O convênio se insere no Programa de Desenvolvimento da Economia da Cultura (Prodec) do governo federal, desenvolvido pela Secretaria de Políticas Culturais do MinC. O repasse para a Fecamp será no valor de R$ 2 milhões divididos em dois anos.

QUALIS para livros

Posted by recunha outubro 07, 2010 0 comments

Fonte: Ciência e Cultura

Cienc. Cult. vol.62 no.3 São Paulo  2010


Necessidade em equilibrar quantidade e qualidade

Rodrigo Cunha

Este é um ano significativo para a história da leitura, com definição de caminhos em produção e disseminação do conhecimento científico. Em janeiro, a Apple anunciou o lançamento do seu leitor de livros digitais que, além de concorrer com o Kindle da Amazon, a maior livraria virtual da atualidade, reacende o debate sobre a tendência de circulação cada vez maior da informação pelo meio digital, com o possível fim dos suportes de leitura em papel. Em fevereiro, um editorial da Nature, no rastro dessa novidade tecnológica anunciada, defendeu o incentivo à disseminação do conhecimento científico no formato de livro. No mês, seguinte, no Brasil, a Universidade Estadual Paulista (Unesp) lançou um programa pioneiro para disponibilizar o download gratuito de livros digitais, contemplando inicialmente 44 obras de pesquisadores de 22 programas de pós-graduação da universidade.

Ao contrário do artigo científico em periódico, o livro oferece espaço para contemplar ideias complexas e transmitir um modo de pensar. Mas o que é um bom livro? Qual a diferença na avaliação do que é produzido em periódico e o que é publicado em formato de livro? Para pesquisadores das ciências duras, tanto a revisão dos artigos por pares dos cientistas, como a classificação dos periódicos por agências oficiais que dão chancela de qualidade, são bons parâmetros para se padronizar a avaliação das produções. Já nas ciências humanas e sociais, os pesquisadores defendem que sejam consideradas especificidades de cada área e diferenças de enfoque e conteúdo, que demandam distintas formas de comunicação.

Um estudo feito por Suzana Machado Mueller, do Departamento de Ciência da Informação e Documentação da Universidade de Brasília, sobre a produção de 226 bolsistas do Programa de Estágio Pós-Doutoral no Exterior da Capes em um período de oito anos, mostra uma nítida diferença nos canais preferenciais para publicação em cada área. Enquanto os pesquisadores de ciências agrárias publicaram uma média de 2,7 artigos por ano em periódicos nacionais, os das ciências exatas preferiram o periódico estrangeiro, com média de um artigo por ano, número quatro vezes maior que nas ciências humanas. Mas a situação se inverte quando a publicação é na forma de capítulo de livro: enquanto nas ciências humanas a média é superior a cinco trabalhos por pesquisador, nas exatas, não chega a um para cada três pesquisadores. Quando se trata de livros inteiros, então, os pesquisadores das ciências humanas publicaram em oito anos cerca de 3,8 títulos cada, enquanto os das exatas publicaram 0,2 obra cada no mesmo período

"Por que as outras áreas têm tanta dificuldade em aceitar que livro ou capítulo de livro tenham o mesmo peso que artigos nas avaliações? Porque, até agora, não se achou um meio adequado de avaliação de livro ou capítulo de livro", responde o linguista José Luiz Fiorin, membro do Conselho da Universidade de São Paulo (USP). Ele acredita que, para avaliar a qualidade dos livros, é preciso haver critérios bibliométricos precisos, confiáveis de avaliação como, por exemplo, considerar o peso da editora, a forma como ela avalia suas publicações.

QUALIS PARA LIVROS

O editor executivo da editora da Unesp, Jézio Hernani Gutierre, concorda com Fiorin e diz que nunca foi tão fácil publicar, bastando para isso pagar. "Hoje, há um esforço universal para estabelecer um critério Qualis de livros, baseado na qualificação das editoras, em selos respeitáveis, com trajetória de muito tempo e com seu corpo de avaliadores. Este ano está sendo inaugurado na biblioteca virtual SciELO um procedimento mais robusto de avaliação de livros, com critérios para ranqueamento, com participação das editoras da Universidade Federal da Bahia, da Fiocruz e da Unesp", revela.

Para Jorge Machado, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP, definir critérios bibliométricos precisos e confiáveis é bastante difícil. "Em ciência é tudo por indicação: há um misto entre meritocracia, networking e alinhamento com o paradigma vigente. Nesse sentido, a ciência é muito conservadora." Em sua opinião, os critérios tendem a ser mais confiáveis quanto maior for a participação da comunidade, o escrutínio público e a transparência das diferentes etapas do processo. "Ficamos a dever em todos esses itens." 

A tentativa de buscar equilíbrio entre quantidade e qualidade na produção também põe em questão as obras em que um ou dois pesquisadores convidam múltiplos autores para colaborar, cada um deles, com um capítulo. O jovem pesquisador poderia encontrar nesse tipo de publicação uma forma de atender às pressões das instâncias que avaliam sua produção do ponto de vista quantitativo. Mas os convites, em muitos casos, são voltados para quem já tem uma produção consolidada.

No fim de maio deste ano, entre os treze lançamentos apresentados no site da editora da UFMG, por exemplo, seis eram creditados a organizadores, ou seja, mais da metade era de autoria coletiva; já, no mesmo período, a proporção de livros de múltiplos autores entre os lançamentos da editora da Fiocruz, era de um terço; a editora da Unesp apresentava em seu site duas obras desse tipo entre quinze que estavam sendo lançadas. "Você tem uma quantidade grande de propostas de obras coletivas, mas a grande maioria ainda é monografia", diz Gutierre. "Mas com a proliferação de congressos e simpósios, muitos anais passaram a ser publicados na forma de livros, e a queda de qualidade é nítida nesse tipo de publicação. 

Fiorin, que publicou livros de sua autoria e organizou obras com vários colaboradores, diz que é preciso repensar o valor do livro integral feito por um único autor. "Algumas coisas que já fizeram muito sentido na avaliação, não fazem mais. Uma pessoa não pode investir um tempo tão grande para fazer um livro, porque a avaliação nas pós graduações exige resultados mais rápidos", conclui.


Depois de seis décadas de telejornalismo em nosso país, um grupo atento e comprometido de professores, pesquisadores e profissionais de dez universidades públicas brasileiras, historiam, analisam e criticam os erros e acertos da televisão. Empenharam-se em apresentar uma compreensão e visão integral do fenômeno telejornalístico: sua evolução histórica, “a revolução das fontes”, seus gêneros, sua influência na cidadania e na identidade nacional, o modelo comercial e o público, o ciberespaço, sua ação política e o poder, seu compromisso com a justiça social, e a formação profissional. 

Esta é a reflexão que este livro propõe sobre os noticiários que adentram em quase cem por cento dos lares brasileiros. O livro tem prefácio de José Marques de Melo, apresentação de Antônio Hohlfeldt, organizado por Alfredo Vizeu, Flávio Porcello, Iluska Coutinho e conta entre os autores com a participação de Valquíria Kneipp, da UFRN. A profa. Valquíria é jornalista diplomada pela Unesp (Bauru/SP), Mestre e Doutora em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da USP. Também atua na área de Comunicação Organizacional e Mídia Training. É professora de Edição em TV, Pesquisa em Comunicação, Oficina de produção e realização em Rádio e TV no curso de Comunicação Social - Habilitações em Jornalismo e Radialismo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.


Fonte: FNDC/A.R.Marini  A serviço do conhecimento e espírito crítico do telespectador

Laurindo Leal Filho - Cientista social, doutor em Ciências da Comunicação pela USP e pós-doutor pelo Goldsmiths College da Universidade de Londres. Publicou os livros "Atrás das Câmeras, relações entre Estado, Cultura e Televisão". "A melhor TV do mundo, o modelo britânico de televisão", "A TV sob controle, a resposta da sociedade ao poder da televisão" e "Vozes de Londres, memórias brasileiras da BBC", além de artigos sobre cultura e comunicação, com ênfase na televisão, em publicações científicas e de divulgação. Professor aposentado da Escola de Comunicações e Artes da USP, é ouvidor-geral da Empresa Brasil de Comunicação e apresentador do programa Ver TV, exibido pela TV Brasil e pela TV Câmara. Atuando, principalmente, nos temas: política, políticas públicas de comunicação, televisão, televisão pública, rádio e jornalismo. Foi Secretário de Esportes, Lazer e Recreação da Prefeitura Municipal de São Paulo na  gestão Luiza Erundina (1989/1993).
Lalo: TV Brasil está se constituindo
na espinha dorsal da nova rede pública


A televisão pública ideal para o Brasil deve ser independente economicamente, tanto do Estado, quanto da publicidade, e garantir sua existência independentemente dos humores dos governantes do momento. Essa TV precisa conquistar seu espaço e competir – sem obsessão por audiências com as emissoras comerciais e conseguir tirar a população da condição de refém do modelo dominado pelo marketing. Assim é a televisão pública idealizada por Laurindo Leal Filho (Lalo), cientista social, doutor em Comunicação, apresentador na TV Brasil do programa “Ver TV”, entrevistado deste e-Fórum. Para Lalo, o entretenimento deve ser um dos pilares da programação na televisão pública, que precisa ainda informar e capacitar o telespectador para ter suas próprias ideias. “O dono da verdade deve ser o público e não a emissora”, afirma. Leia a seguir.
e-Fórum - Como o senhor define “TV pública”, considerando a realidade e as necessidades brasileiras?
Lalo Leal - No Brasil, é imperiosa a necessidade de uma televisão pública nacional forte, capaz de competir em pé de igualdade com as emissoras comerciais. Infelizmente, adotamos aqui o modelo de exploração privada da radiodifusão desde o seu início, sem abrir espaços para alternativas. Isso fez com que a população brasileira ficasse refém de um modelo único, cuja finalidade primordial é a realização de lucros para os seus controladores.
Descartou-se a ideia da prestação de um serviço de radiodifusão voltado para a ampliação do conhecimento, do incentivo ao espírito crítico e da ousadia na criação de formatos e conteúdos audiovisuais, entre outras características inerentes ao modelo público de rádio e TV.
No caso específico da televisão, é importante que ela, ao prestar esse tipo de serviço, crie um novo público capaz de exigir também das emissoras comerciais produções de melhor qualidade. Com isso, a TV pública não só cumpriria a sua missão específica, como também contribuiria para a melhoria de todo o conjunto da televisão brasileira.
e-Fórum - Qual seria o papel do Estado/governo na TV pública que o senhor idealiza?
Lalo Leal - Ao Estado, acima dos governos, cabe a tutela institucional desses empreendimentos, na medida em que são eles os detentores das respectivas titularidades. Cabe, igualmente, impulsionar essas iniciativas oferecendo as condições institucionais e materiais básicas para o funcionamento desse tipo de emissora.
Assim como devem alocar recursos para a saúde, a educação e a cultura, os governos têm também a obrigação de investir na televisão pública. Ainda mais no Brasil, onde ela é, para a maioria absoluta da população, a única fonte de informação e de entretenimento. Nesse sentido, a TV Pública torna-se peça importante no aprimoramento da democracia, na medida em que pode oferecer visões de mundo além daquelas determinadas pelo mercado.
Quanto ao controle, a presença dos governos nos conselhos gestores é importante na medida em que os titulares dos cargos executivos têm o respaldo da sociedade obtido pelo voto. Mas para dar conta da ampla diversidade cultural existente nos pais, é igualmente importante a presença nos conselhos de representantes da sociedade, indicados por ela, em processos abertos e democráticos.
e-Fórum - Quem deve financiar uma TV pública (além do Estado) e qual seria o mecanismo adequado? Ele incluiria a veiculação de anúncios pagos?
Lalo Leal - O modelo ideal é o do financiamento autônomo das emissoras públicas, capaz de torná-las independentes tanto do Estado como da publicidade, como ocorre em alguns países europeus onde as emissoras são mantidas exclusivamente pelas taxas pagas pelos telespectadores.
No caso brasileiro, acredito que não exista cultura nem condições materiais objetivas para que grande parte da população possa assumir mais esse encargo. Dessa forma, o ideal seria a existência de uma cesta de fontes de financiamento capaz de evitar a dependência excessiva da emissora em relação a apenas uma delas.
Sem dúvida, caberia ao Estado a fatia maior, mas a ela poderiam ser acrescentados recursos de doações e de apoios culturais a programas e programações, por exemplo. Mas propaganda, de forma alguma, descaracteriza a linguagem da emissora e a coloca no mesmo plano das empresas comerciais de comunicação ao passar a disputar, com elas, o mercado publicitário, com o inevitável rebaixamento da qualidade da programação. Quando isso ocorre, o departamento de marketing passa a ter mais poder do que os setores de produção da emissora, impondo critérios de mercado em detrimento da prestação de um serviço público.
e-Fórum - Trata-se de criar uma nova rede de TVs ou de tentar transformar a rede atual, controlada pelo Estado?
Lalo Leal - Acredito que, no plano nacional, a TV Brasil está se constituindo na espinha dorsal da nova rede. Falta ainda a universalização do seu sinal para que a programação por ela produzida possa chegar, com alta qualidade técnica, a qualquer parte do país.
Além disso, diante das dimensões territoriais brasileiras e da sua diversidade cultural, o ideal seria que houvesse, além de um canal nacional, canais públicos regionais e locais. E mais ainda, que pelo menos a emissora nacional pudesse emitir, no mínimo, três programações diferenciadas por três canais independentes: um apenas com programação para crianças, outro exclusivamente de notícias e um generalista para todos os gostos. Por que não? Tecnologia, recursos humanos e financeiros existem, resta acioná-los.
e-Fórum - A TV Cultura de SP, referência no Brasil, enfrenta grave crise. Estamos perdendo um modelo de TV pública no país?
Lalo Leal - Crise na TV Cultura de São Paulo não é novidade. Em meados da década de 1980, publiquei um livro (Atrás das Câmeras - Relações entre Cultura, Estado e Televisão. Ed. Summus, SP) sobre essa emissora onde analisava as crises ocorridas desde a sua inauguração, em 1968. De lá para cá, nada mudou.
Apesar de ser mantida por uma fundação de direito privado, portanto imune à intervenção estatal, a TV Cultura vive sempre sob pressão dos governos de turno do Estado de São Paulo. Ainda que formalmente autônomo, o Conselho Curador da Fundação Padre Anchieta é muito submisso às imposições dos governos do Estado e muito distante da sociedade. No entanto, não acredito que o modelo esteja se perdendo.
Na minha opinião, ele pode ser mantido e aprimorado. Começando, por exemplo, com a ampla divulgação dos nomes e dos contatos de todos os conselheiros da Fundação Padre Anchieta e das suas disponibilidades de horários para o atendimento do público. Afinal, eles não são os representantes da sociedade? Para exercer essa tarefa, o requisito número um é ouvir os seus representados.
e-Fórum - Qual seria o tipo de programação ideal para uma TV pública? Deveria abdicar de transmitir novelas, por exemplo?
Lalo Leal - Não. O entretenimento deve ser um dos pilares da programação de uma TV pública e nele a dramaturgia deve ter um papel central. Por que não levar ao ar séries teatrais baseadas em clássicos da literatura universal contando com os recursos cenográficos e técnicos consagrados pelas novelas?
A programação deve ser atraente, construtiva, de bom nível, que dê conta de toda a riqueza cultural produzida no país. Sem obsessão por altas audiências, mas também sem desprezá-las. Buscando atender aos mais variados gostos do público, dentro de padrões éticos e estéticos elevados. "O serviço público de rádio e televisão deve tornar o popular respeitável e o que é respeitável popular", resumia Alasdair Milne, diretor geral da BBC nos anos 1980.
Para deixar tudo isso mais claro, dou exemplos de como seria parte da programação de uma rede pública. Deve, por exemplo, resgatar os programas musicais de qualidade, exibindo-os no horário nobre, na faixa das 20h, concorrendo diretamente com as novelas e os telejornais das emissoras comerciais. Aliás, a música já foi, em outras épocas, o carro-chefe das programações das grandes emissoras brasileiras. Hoje ele é apêndice dos interesses das gravadoras.
No domingo à tarde, por exemplo, quando o público brasileiro está acostumado a ver programas de auditório – sempre os mesmos, a mesma coisa - é possível fazer um programa agradável, estimulante, sem cair na baixaria. A TV Bandeirantes colocou no ar o programa 'É tudo improviso', feito por um grupo de teatro que trabalha com humor de alto nível. Esse grupo numa TV pública, num domingo à tarde, estaria conquistando telespectadores desses programas de variedades para um outro nível de produção artística e até levando gente ao teatro e à música mais elaborada.
Outro exemplo seria o da rede tendo como missão dar ao público um cinema de bom nível, nacional e estrangeiro, exibido sem intervalos. Algo que alguns canais a cabo já fazem para poucos privilegiados (menos de 10% da população brasileira). Para não falar da necessidade de uma programação infantil sedutora, com conteúdo educativo, mas sem loiras, prêmios ou merchandisings. E um jornalismo crítico e independente, capaz de oferecer ao telespectador informações que o habilite a tomar, ele próprio, suas decisões. O dono da verdade deve ser o público e não a emissora.
O Brasil, infelizmente, é uma das poucas grandes democracias do mundo que não exibe debates políticos na TV como rotina. Eles surgem, como raios em céu azul, às vésperas das eleições, completamente engessados. Dá inveja ver, por exemplo, os programas de debates políticos regulares na TV argentina ou os debates sobre os temas do dia, toda a noite, na TV britânica.
Se um dia a TV pública brasileira atingir essas metas, estaremos dando um salto de qualidade nunca visto em nossa televisão. Aproximando-a do modelo britânico, reconhecido como o melhor do mundo. E que tem como um dos seus objetivos "despertar o público para ideias e gostos culturais menos familiares, ampliando mentes e horizontes, elevar a qualidade de vida do telespectador, em vez de meramente puxá-lo para o rotineiro com programas concebidos como uma forma de capacitar o telespectador para uma enriquecedora experiência de vida. Parece sonho não? Mas sem ele, estaremos condenados à mediocridade.
e-Fórum - Quais são as perspectivas para a TV pública brasileira, considerando as mudanças que ocorrerão nos governos federal e estaduais?
Lalo Leal - O ideal seria que não houvesse mudança nenhuma. Que as emissoras seguissem suas vidas independentemente dos humores dos governantes do momento. Sei que isso é difícil por aqui. A ameaça, já superada, de uma vitória da oposição a nível nacional colocaria em risco o projeto da TV Brasil. Daí a necessidade da criação de mecanismos de controle e financiamento estáveis para todas as TVs públicas como forma de blindá-las contra qualquer tentativa de retrocesso.


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