Caros,a professora Ivana Bentes, da ECO/UFRJ, apresenta uma boa reflexão sobre a extinção do diploma de jornalista, que publicamos na íntegra.

Fim da exigência do Diploma de jornalista abre novas formas de lutas
pós mídias digitais *



Em votação histórica no Supremo Tribunal Federal, nesta quarta-feira,
dia 17/06/2009, foi aprovado, por 8 votos contra 1, o fim da exigência
de diploma de jornalismo para exercer a profissão.

O fim da exigência do diploma para se exercer o jornalismo no Brasil
(como em tantos países do mundo inteiro) abre uma série de novas
questões e debates sobre o campo da Comunicação pós-midias digitais,
mas não ameaça os Cursos de Comunicação, nem a habilitação de
Jornalismo, em nosso entender (posição que defendemos há muito tempo).

Agora, será necessário constituir novos “direitos” para jornalistas e
não-jornalistas, free-lancers, blogueiros e midialivristas terão que
inventar novas formas de lutas, comuns.

O fim do diploma tira da “invisibilidade” a nova força do capitalismo
cognitivo, as centenas e milhares de jovens free-lancers, autônomos,
midialivristas, inclusive formados em outras habilitações de
Comunicação, que eram impedidos por lei de fazer jornalismo e exercer
a profissão e que, ao lado de qualquer jovem formado em Comunicação,
constituem hoje os novos produtores simbólicos, a nova força de
trabalho “vivo”.

Alguns argumentos em "defesa do diploma” sempre escamotearam alguns
pontos decisivos:

1. O fim da exigência de diploma para trabalhar em jornalismo não
significa o fim do Ensino Superior em Jornalismo, nem o fim dos Cursos
de Comunicação, ou da Habilitação em Jornalismo, que nunca foram tão
valorizados. Outros cursos, extremamente bem sucedidos e disputados no
campo da Comunicação (como Publicidade) não tem exigência de diploma
para exercer a profissão e são um sucesso com enorme demanda.

A qualidade dos cursos e da formação sempre teve a ver diretamente com
projetos pedagógicos "desengessados", com consistência acadêmica,
professores de formação múltipla e aberta, diversidade subjetiva e não
com “especificidade” ou exigência corporativa de diploma.

2. As empresas de jornalismo e comunicação são as primeiras a
contratarem os jornalistas com formação superior. NA UFRJ, por
exemplo, os estudantes de Comunicação e Jornalismo são “caçados” pelas
empresas que dão preferência aos formados, com nível superior em
Comunicação, por que mudariam?

3. O argumento de “quem é contra o diploma faz o jogo dos patrões”, é
um raciocínio muitas vezes mais conservador que o próprio discurso das
empresas/mercado que precisa empregar quem tem formação de qualidade.
Que precisa de profissionais qualificados,capazes de entender os novos
ambientes pós-digitais, capazes de fazer redes e de inovar em
diferentes campos.

4. Os jornais já burlam a exigência de diploma pagando os MAIORES
salários da Redação aos não-jornalistas, cronistas, articulistas,
editorialistas, muitos SEM diploma (a exigência de diploma nunca
alterou esse quadro!).

As Universidades não precisam formar os “peões”
diplomados, mas jovens capazes de exercer sua autonomia, liberdade e
singularidade, dentro e fora das corporações, não profissionais “para
o mercado”, simplesmente, mas capazes de “criar” novos mercados,
jornalismo público, pós-corporações.

5. A “excepcionalidade” do diploma para os jornalistas criou uma
“reserva de mercado” para um grupo e que diminuía a empregabilidade de
jovens formados em cinema, rádio e TV, audiovisual, publicidade,
produção editorial, etc. que eram proibidos pelo diploma de
exercer…..jornalismo.

Até agora, nenhuma entidade corporativa defendeu nem pensou em uma
seguridade nova para os free-lancers, os precários, os que não tem e
nunca terão carteira assinada. É hora das associações, federações,
sindicatos mudarem o discurso do século XIX e entrarem no século XXI
buscando uma nova forma de SEGURIDADE PARA OS PRECÁRIOS, OS NÃO
DIPLOMADOS, OS MIDIALIVRISTAS, o fim do diploma aponta para essas
novas lutas.

O raciocínio corporativo constituiu até hoje um discurso, fabril, de
defesa da “carteira assinada” e “postos de trabalho “, quando no
capitalismo cognitivo, no capitalismo dos fluxos e da informação o que
interessa é qualificar não para “postos” ou especialidades (o operário
substituível, o salário mais baixo da redação!), mas para CAMPOS DO
CONHECIMENTO, como o campo da Comunicação e outros, para a produção de
conhecimento de forma autônoma e livre, não o assujeitamento do
assalariado, paradigma do capitalismo fordista.

A idéia de que para ter “direitos” é preciso se ‘assujeitar” a uma
relação de patrão/empregado, de “assalariamento”, é uma idéia no
mínimo conservadora.

O precariado cognitivo, os jovens precários das economias criativas
estão reinventando as relações de trabalho, os desafios são enormes, a
economia pós-Google não é a Globo fordista, não vamos combater as
novas assimetrias e desigualdades com discursos e instrumentos da
revolução industrial.

Devemos lutar não por cartórios do século XIX, mas pelos novos
movimentos sociais de organização e defesa do precariado, lutar pela
AUTONOMIA fora das corporações, para novas formas de organização e
seguridade do trabalhador livre do PATRÃO E DA CORPORAÇÃO.

A General Motors nos EUA e as fábricas fordistas não vão falir
sozinhas, levarão juntos o capitalismo fabril, patronal, corporativo e
o arsenal conceitual, os discursos, que não conseguem mais dar conta,
nem explicar, as mudanças.

Acabou o diploma de Jornalismo, mas o diploma/formação de Comunicação
nunca foi tão importante! Vamos agora pensar o jornalismo público, o
jornalismo do comum! Isso não tem nada a ver com “neoliberalismo”.
Existem hoje “revoluções do capitalismo” (titulo do belo livro de
Mauricio Lazaratto, inspirado em Antonio Negri e Gilles Deleuze).

A Comunicação e o jornalismo são importantes demais para serem
“exclusivas” de um grupo de “profissionais”. A Comunicação e o
jornalismo hoje são um “direito” de todos, que será exercido por
qualquer brasileiro, com ou sem diploma.

O capitalismo cognitivo está constituindo um novo processo de
acumulação globalizado, que tem como base o conhecimento, as redes
sociais, a comunicação, o “trabalho vivo” (Negri. Lazaratto, Cocco), existem,
claro, novas formas de exploração e assujeitamento, mas também novas
formas de luta!

O precariado cognitivo, os Pré-Cogs, já estão chegando e são a base
da comunicação, base das tecnologias da informação, base da economia
do conhecimento, que alimenta a inovação e as novas lutas.

Defendemos a formação superior em Comunicação, a formação em
Jornalismo, as Escola Livres de Jornalismo e as novas dinâmicas de
ensino/aprendizado e trabalho “vivo”.

Ivana Bentes é professora, pesquisadora e diretora da Escola de
Comunicação da UFRJ, é formada em Comunicação com habilitação em
jornalismo, especialização no IFCS em Filosofia e autodidata no campo do audiovisual,
estuda novas mídias on line.

* Texto para a coluna de Carta Capital e no site http://www.trezentos.blog.br/

Twitter @ivanabentes

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