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A construção e a difusão do conhecimento passam por transformações importantes neste início de século. Cada vez mais, o meio digital se afirma como esfera privilegiada de circulação da informação. É o momento de repensarmos a relação entre o leitor e o livro nos (novos) espaços de leitura. O Seminário Mindlin 2010, "O Futuro das Bibliotecas", convida intelectuais e profissionais das comunicações, da arquitetura e das políticas públicas a se reunirem para debater este tema. As experiências e reflexões em torno de diferentes espaços para o livro, diferentes formas do livro e diferentes olhares sobre o livro nos permitirão discutir os caminhos que despontam para os novos significados dessas relações e os novos sentidos das Bibliotecas.

13/10 (QUARTA-FEIRA)

19:30 Sessão de abertura

Homenagem a José Mindlin

Homenagem a István Jancsó

Lançamento da Brasiliana Digital Versão 2.0 

Inscrições: As inscrições são gratuitas e serão realizadas no local e dias do evento.  

Certificados: Os certificados serão emitidos eletronicamente e enviados por e-mail. 

Informações:(11) 3091-1154 / 3091-1195

14/10 (QUINTA-FEIRA)

14:00
Novas Casas: Arquitetura das Bibliotecas

. Ana Paula Megiani — Coordenação
. Angelo Bucci
. Eduardo de Almeida
. Rodrigo Loeb 
 
16:00 Coffee break

16:30
Novas Formas: e-livros

. Edson Gomi — Coordenação
. Matinas Suzuki
. Diego Andrade de Mello
. Susanna Florissi

15/10 (SEXTA-FEIRA)

14:00
Novos Olhares: Leitores nas Bibliotecas Digitais

. Esmeralda Vailati Negrão — Coordenação
. Idelber Avelar
. Roberto Taddei
. Maria Clara Paixão de Sousa

16:00 Coffee break

16:30
Novos Marcos: Políticas Públicas para Acervos Digitais

. Sueli Mara Soares Pinto Ferreira — Coordenação
. Manuel J. Pereira dos Santos
. Samuel Barichello
. Marcos Wachowicz

QUALIS para livros

Posted by admin 7 de out. de 2010 0 comments

Fonte: Ciência e Cultura

Cienc. Cult. vol.62 no.3 São Paulo  2010


Necessidade em equilibrar quantidade e qualidade

Rodrigo Cunha

Este é um ano significativo para a história da leitura, com definição de caminhos em produção e disseminação do conhecimento científico. Em janeiro, a Apple anunciou o lançamento do seu leitor de livros digitais que, além de concorrer com o Kindle da Amazon, a maior livraria virtual da atualidade, reacende o debate sobre a tendência de circulação cada vez maior da informação pelo meio digital, com o possível fim dos suportes de leitura em papel. Em fevereiro, um editorial da Nature, no rastro dessa novidade tecnológica anunciada, defendeu o incentivo à disseminação do conhecimento científico no formato de livro. No mês, seguinte, no Brasil, a Universidade Estadual Paulista (Unesp) lançou um programa pioneiro para disponibilizar o download gratuito de livros digitais, contemplando inicialmente 44 obras de pesquisadores de 22 programas de pós-graduação da universidade.

Ao contrário do artigo científico em periódico, o livro oferece espaço para contemplar ideias complexas e transmitir um modo de pensar. Mas o que é um bom livro? Qual a diferença na avaliação do que é produzido em periódico e o que é publicado em formato de livro? Para pesquisadores das ciências duras, tanto a revisão dos artigos por pares dos cientistas, como a classificação dos periódicos por agências oficiais que dão chancela de qualidade, são bons parâmetros para se padronizar a avaliação das produções. Já nas ciências humanas e sociais, os pesquisadores defendem que sejam consideradas especificidades de cada área e diferenças de enfoque e conteúdo, que demandam distintas formas de comunicação.

Um estudo feito por Suzana Machado Mueller, do Departamento de Ciência da Informação e Documentação da Universidade de Brasília, sobre a produção de 226 bolsistas do Programa de Estágio Pós-Doutoral no Exterior da Capes em um período de oito anos, mostra uma nítida diferença nos canais preferenciais para publicação em cada área. Enquanto os pesquisadores de ciências agrárias publicaram uma média de 2,7 artigos por ano em periódicos nacionais, os das ciências exatas preferiram o periódico estrangeiro, com média de um artigo por ano, número quatro vezes maior que nas ciências humanas. Mas a situação se inverte quando a publicação é na forma de capítulo de livro: enquanto nas ciências humanas a média é superior a cinco trabalhos por pesquisador, nas exatas, não chega a um para cada três pesquisadores. Quando se trata de livros inteiros, então, os pesquisadores das ciências humanas publicaram em oito anos cerca de 3,8 títulos cada, enquanto os das exatas publicaram 0,2 obra cada no mesmo período

"Por que as outras áreas têm tanta dificuldade em aceitar que livro ou capítulo de livro tenham o mesmo peso que artigos nas avaliações? Porque, até agora, não se achou um meio adequado de avaliação de livro ou capítulo de livro", responde o linguista José Luiz Fiorin, membro do Conselho da Universidade de São Paulo (USP). Ele acredita que, para avaliar a qualidade dos livros, é preciso haver critérios bibliométricos precisos, confiáveis de avaliação como, por exemplo, considerar o peso da editora, a forma como ela avalia suas publicações.

QUALIS PARA LIVROS

O editor executivo da editora da Unesp, Jézio Hernani Gutierre, concorda com Fiorin e diz que nunca foi tão fácil publicar, bastando para isso pagar. "Hoje, há um esforço universal para estabelecer um critério Qualis de livros, baseado na qualificação das editoras, em selos respeitáveis, com trajetória de muito tempo e com seu corpo de avaliadores. Este ano está sendo inaugurado na biblioteca virtual SciELO um procedimento mais robusto de avaliação de livros, com critérios para ranqueamento, com participação das editoras da Universidade Federal da Bahia, da Fiocruz e da Unesp", revela.

Para Jorge Machado, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP, definir critérios bibliométricos precisos e confiáveis é bastante difícil. "Em ciência é tudo por indicação: há um misto entre meritocracia, networking e alinhamento com o paradigma vigente. Nesse sentido, a ciência é muito conservadora." Em sua opinião, os critérios tendem a ser mais confiáveis quanto maior for a participação da comunidade, o escrutínio público e a transparência das diferentes etapas do processo. "Ficamos a dever em todos esses itens." 

A tentativa de buscar equilíbrio entre quantidade e qualidade na produção também põe em questão as obras em que um ou dois pesquisadores convidam múltiplos autores para colaborar, cada um deles, com um capítulo. O jovem pesquisador poderia encontrar nesse tipo de publicação uma forma de atender às pressões das instâncias que avaliam sua produção do ponto de vista quantitativo. Mas os convites, em muitos casos, são voltados para quem já tem uma produção consolidada.

No fim de maio deste ano, entre os treze lançamentos apresentados no site da editora da UFMG, por exemplo, seis eram creditados a organizadores, ou seja, mais da metade era de autoria coletiva; já, no mesmo período, a proporção de livros de múltiplos autores entre os lançamentos da editora da Fiocruz, era de um terço; a editora da Unesp apresentava em seu site duas obras desse tipo entre quinze que estavam sendo lançadas. "Você tem uma quantidade grande de propostas de obras coletivas, mas a grande maioria ainda é monografia", diz Gutierre. "Mas com a proliferação de congressos e simpósios, muitos anais passaram a ser publicados na forma de livros, e a queda de qualidade é nítida nesse tipo de publicação. 

Fiorin, que publicou livros de sua autoria e organizou obras com vários colaboradores, diz que é preciso repensar o valor do livro integral feito por um único autor. "Algumas coisas que já fizeram muito sentido na avaliação, não fazem mais. Uma pessoa não pode investir um tempo tão grande para fazer um livro, porque a avaliação nas pós graduações exige resultados mais rápidos", conclui.


"Eletrônicos duram 10 anos; livros, 5 séculos", diz Umberto Eco

Ensaísta e escritor italiano fala em entrevista exclusiva de seu novo trabalho, "Não Contem com o Fim do Livro"

MILÃO – O bom humor parece ser a principal característica do semiólogo, ensaísta e escritor italiano Umberto Eco. Se não, é a mais evidente. Ao pasmado visitante, boquiaberto diante de sua coleção de 30 mil volumes guardados em seu escritório/residência em Milão, ele tem duas respostas prontas quando é indagado se leu toda aquela vastidão de papel. “Não. Esses livros são apenas os que devo ler na semana que vem. Os que já li estão na universidade” – é a sua preferida. “Não li nenhum”, começa a segunda. “Se não, por que os guardaria?”

Na verdade, a coleção é maior, beira os 50 mil volumes, pois os demais estão em outra casa, no interior da Itália. E é justamente tal paixão pela obra em papel que convenceu Eco a aceitar o convite de um colega francês, Jean-Phillippe de Tonac, para, ao lado de outro incorrigível bibliófilo, o escritor e roteirista Jean-Claude Carrière, discutir a perenidade do livro tradicional. Foram esses encontros (“muito informais, à beira da piscina e regados com bons uísques”, informa Umberto Eco) que resultaram em Não Contem Com o Fim do Livro, que a editora Record lança na segunda quinzena de abril.

A conclusão é óbvia: tal qual a roda, o livro é uma invenção consolidada, a ponto de as revoluções tecnológicas, anunciadas ou temidas, não terem como detê-lo. Qualquer dúvida é sanada ao se visitar o recanto milanês de Eco, como fez o Estado na última quarta-feira. Localizado diante do Castelo Sforzesco, o apartamento – naquele dia soprado por temperaturas baixíssimas, a neve pesada insistindo em embranquecer a formidável paisagem que se avista de sua sacada – encontra-se em um andar onde antes fora um pequeno hotel. “Se eram pouco funcionais para os hóspedes, os longos corredores são ótimos para mim pois estendo aí minhas estantes”, comenta o escritor, com indisfarçável prazer, ao apontar uma linha reta de prateleiras repletas que não parecem ter fim. Os antigos quartos? Transformaram-se em escritórios, dormitórios, sala de jantar, etc. O mais desejado, no entanto, é fechado a chave, climatizado e com uma janela que veda a luz solar: lá estão as raridades, obras produzidas há séculos, verdadeiros tesouros. Isso mesmo: tesouros de papel.

Conhecido tanto pela obra acadêmica (é professor aposentado de semiótica, mas ainda permanece na ativa na Faculdade de Bolonha) como pelos romances (O Nome da Rosa, publicado em 1980, tornou-se um best-seller mundial), Eco é um colecionador nato; além de livros, gosta também de selos, cartões-postais, rolhas de champanhe. Na sala de seu apartamento, estantes de vidro expõem tantos os livros raros – que, no momento, lideram sua preferência – como conchas, pedras, pedaços de madeira. As paredes expõem quadros que Eco arrematou nas visitas que fez a vários países ou que simplesmente ganhou de amigos – caso de Mário Schenberg (1914-1990), físico, político e crítico de arte brasileiro, de quem o escritor guarda as melhores recordações.

Aos 78 anos, Eco – que tem relançado no País Arte e Beleza na Estética Medieval (Record, 368 págs., R$ 47,90, tradução de Mario Sabino) – exibe uma impressionante vitalidade. Diverte-se com todo tipo de cinema (ao lado de seu aparelho de DVD repousa uma cópia da animação Ratatouille), mantém contato com seus alunos em Bolonha, escreve artigos para jornais e revistas e aceita convites para organizar exposições, como a que o transformou, no ano passado, em curador, no Museu do Louvre, em Paris. Lá, o autor teve o privilégio de passear sozinho pelos corredores do antigo palácio real francês nos dias em que o museu está fechado. E, como um moleque levado, aproveitou para alisar o bumbum da Vênus de Milo. Foi com esse mesmo espírito bem-humorado que Eco – envergando um elegante terno azul-marinho, que uma revolta gravata da mesma cor tratava de desalinhar; o rosto sem a característica barba grisalha (raspada religiosamente a cada 20 anos e, da última vez, em 2009, também porque o resistente bigode preto o fazia parecer Gengis Khan nas fotos) – conversou com a reportagem do Sabático.

O livro não está condenado, como apregoam os adoradores das novas tecnologias?
O desaparecimento do livro é uma obsessão de jornalistas, que me perguntam isso há 15 anos. Mesmo eu tendo escrito um artigo sobre o tema, continua o questionamento. O livro, para mim, é como uma colher, um machado, uma tesoura, esse tipo de objeto que, uma vez inventado, não muda jamais. Continua o mesmo e é difícil de ser substituído. O livro ainda é o meio mais fácil de transportar informação. Os eletrônicos chegaram, mas percebemos que sua vida útil não passa de dez anos. Afinal, ciência significa fazer novas experiências. Assim, quem poderia afirmar, anos atrás, que não teríamos hoje computadores capazes de ler os antigos disquetes? E que, ao contrário, temos livros que sobrevivem há mais de cinco séculos? Conversei recentemente com o diretor da Biblioteca Nacional de Paris, que me disse ter escaneado praticamente todo o seu acervo, mas manteve o original em papel, como medida de segurança.

Qual a diferença entre o conteúdo disponível na internet e o de uma enorme biblioteca?
A diferença básica é que uma biblioteca é como a memória humana, cuja função não é apenas a de conservar, mas também a de filtrar – muito embora Jorge Luis Borges, em seu livro Ficções, tenha criado um personagem, Funes, cuja capacidade de memória era infinita. Já a internet é como esse personagem do escritor argentino, incapaz de selecionar o que interessa – é possível encontrar lá tanto a Bíblia como Mein Kampf, de Hitler. Esse é o problema básico da internet: depende da capacidade de quem a consulta. Sou capaz de distinguir os sites confiáveis de filosofia, mas não os de física. Imagine então um estudante fazendo uma pesquisa sobre a 2.ª Guerra Mundial: será ele capaz de escolher o site correto? É trágico, um problema para o futuro, pois não existe ainda uma ciência para resolver isso. Depende apenas da vivência pessoal. Esse será o problema crucial da educação nos próximos anos.

Não é possível prever o futuro da internet?
Não para mim. Quando comecei a usá-la, nos anos 1980, eu era obrigado a colocar disquetes, rodar programas. Hoje, basta apertar um botão. Eu não imaginava isso naquela época. Talvez, no futuro, o homem não precise escrever no computador, apenas falar e seu comando de voz será reconhecido. Ou seja, trocará o teclado pela voz. Mas realmente não sei.

Como a crescente velocidade de processar dados de um computador poderá influenciar a forma como absorvemos informação?
O cérebro humano é adaptável às necessidades. Eu me sinto bem em um carro em alta velocidade, mas meu avô ficava apavorado. Já meu neto consegue informações com mais facilidade no computador do que eu. Não podemos prever até que ponto nosso cérebro terá capacidade para entender e absorver novas informações. Até porque uma evolução física também é necessária. Atualmente, poucos conseguem viajar longas distâncias – de Paris a Nova York, por exemplo – sem sentir o desconforto do jet lag. Mas quem sabe meu neto não poderá fazer esse trajeto no futuro em meia hora e se sentir bem?

É possível existir contracultura na internet?
Sim, com certeza, e ela pode se manifestar tanto de forma revolucionária como conservadora. Veja o que acontece na China, onde a internet é um meio pelo qual é possível se manifestar e reagir contra a censura política. Enquanto aqui as pessoas gastam horas batendo papo, na China é a única forma de se manter contato com o restante do mundo.

Em um determinado trecho de ‘Não Contem Com o Fim do Livro’, o senhor e Jean-Claude Carrière discutem a função e preservação da memória – que, como se fosse um músculo, precisa ser exercitada para não atrofiar.
De fato, é importantíssimo esse tipo de exercício, pois estamos perdendo a memória histórica. Minha geração sabia tudo sobre o passado. Eu posso detalhar sobre o que se passava na Itália 20 anos antes do meu nascimento. Se você perguntar hoje para um aluno, ele certamente não saberá nada sobre como era o país duas décadas antes de seu nascimento, pois basta dar um clique no computador para obter essa informação. Lembro que, na escola, eu era obrigado a decorar dez versos por dia. Naquele tempo, eu achava uma inutilidade, mas hoje reconheço sua importância. A cultura alfabética cedeu espaço para as fontes visuais, para os computadores que exigem leitura em alta velocidade. Assim, ao mesmo tempo que aprimora uma habilidade, a evolução põe em risco outra, como a memória. Lembro-me de uma maravilhosa história de ficção científica escrita por Isaac Asimov, nos anos 1950. É sobre uma civilização do futuro em que as máquinas fazem tudo, inclusive as mais simples contas de multiplicar. De repente, o mundo entra em guerra, acontece um tremendo blecaute e nenhuma máquina funciona mais. Instala-se o caos até que se descobre um homem do Tennessee que ainda sabe fazer contas de cabeça. Mas, em vez de representar uma salvação, ele se torna uma arma poderosa e é disputado por todos os governos – até ser capturado pelo Pentágono por causa do perigo que representa (risos). Não é maravilhoso?

No livro, o senhor e Carrière comentam sobre como a falta de leitura de alguns líderes influenciou suas errôneas decisões.
Sim, escrevi muito sobre informação cultural, algo que vem marcando a atual cultura americana que parece questionar a validade de se conhecer o passado. Veja um exemplo: se você ler a história sobre as guerras da Rússia contra o Afeganistão no século 19, vai descobrir que já era difícil combater uma civilização que conhece todos os segredos de se esconder nas montanhas. Bem, o presidente George Bush, o pai, provavelmente não leu nenhuma obra dessa natureza antes de iniciar a guerra nos anos 1990. Da mesma forma que Hitler devia desconhecer os relatos de Napoleão sobre a impossibilidade de se viajar para Moscou por terra, vindo da Europa Ocidental, antes da chegada do inverno. Por outro lado, o também presidente americano Roosevelt, durante a 2.ª Guerra, encomendou um detalhado estudo sobre o comportamento dos japoneses para Ruth Benedict, que escreveu um brilhante livro de antropologia cultural, O Crisântemo e a Espada. De uma certa forma, esse livro ajudou os americanos a evitar erros imperdoáveis de conduta com os japoneses, antes e depois da guerra. Conhecer o passado é importante para traçar o futuro.

Diversos historiadores apontam os ataques terroristas contra os americanos em 11 de setembro de 2001 como definidores de um novo curso para a humanidade. O senhor pensa da mesma forma?
Foi algo realmente modificador. Na primeira guerra americana contra o Iraque, sob o governo de Bush pai, havia um confronto direto: a imprensa estava lá e presenciava os combates, as perdas humanas, as conquistas de território. Depois, em setembro de 2001, se percebeu que a guerra perdera a essência de confronto humano direto – o inimigo transformara-se no terrorismo, que podia se personificar em uma nação ou mesmo nos vizinhos do apartamento ao lado. Deixou de ser uma guerra travada por soldados e passou para as mãos dos agentes secretos. Ao mesmo tempo, a guerra globalizou-se; todos podem acompanhá-la pela televisão, pela internet. Há discussões generalizadas sobre o assunto.

Falando agora sobre sua biblioteca, é verdade que ela conta com 50 mil volumes?
Sim, de uma forma geral. Nesse apartamento em Milão, estão apenas 30 mil – o restante está no interior da Itália, onde tenho outra casa. Mas sempre me desfaço de algumas centenas, pois, como disse antes, é preciso fazer uma filtragem.

Por que o senhor impediu sua secretária de catalogá-los?
Porque a forma como você organiza seus livros depende da sua necessidade atual. Tenho um amigo que mantém os seus em ordem alfabética de autores, o que é absolutamente estúpido, pois a obra de um historiador francês vai estar em uma estante e a de outro em um lugar diferente. Eu tenho aqui literatura contemporânea separada por ordem alfabética de países. Já a não contemporânea está dividida por séculos e pelo tipo de arte. Mas, às vezes, um determinado livro pode tanto ser considerado por mim como filosófico ou de estética da arte; depende do motivo da minha pesquisa. Assim, reorganizo minha biblioteca segundo meus critérios e somente eu, e não uma secretária, pode fazer isso. Claro que, com um acervo desse tamanho, não é fácil saber onde está cada livro. Meu método facilita, eu tenho boa memória, mas, se algum idiota da família retira alguma obra de um lugar e a coloca em outro, esse livro está perdido para sempre. É melhor comprar outro exemplar (risos).

Um estudioso que também é seu amigo, Marshall Blonsky, escreveu certa vez que existe de um lado Umberto, o famoso romancista, e de outro Eco, professor de semiótica.
E ambos sou eu (risos). Quando escrevo romances, procuro não pensar em minhas pesquisas acadêmicas – por isso, tiro férias. Mesmo assim, leitores e críticos traçam diversas conexões, o que não discuto. Lembro de que, quando escrevia O Pêndulo de Foucault, fiz diversas pesquisas sobre ciência oculta até que, em um determinado momento, elas atingiram tal envergadura que temi uma teorização exagerada no romance. Então, transformei todo o material em um curso sobre ciência oculta, o que foi muito bem-feito.

Por falar em ‘O Pêndulo de Foucault’, comenta-se que o senhor antecipou em muito tempo O Código de Da Vinci, de Dan Brown.
Quem leu meu livro sabe que é verdade. Mas, enquanto são os meus personagens que levam a sério esse ocultismo barato, Dan Brown é quem leva isso a sério e tenta convencer os leitores de que realmente é um assunto a ser considerado. Ou seja, fez uma bela maquiagem. Fomos apresentados neste ano em uma première do Teatro Scala e ele assim se apresentou: “O senhor não me admira, mas eu gosto de seus livros.” Respondi: Não é que eu não goste de você – afinal, eu criei você (risos).

Em seu mais conhecido romance, O Nome da Rosa, há um momento em que se discute se Jesus chegou a sorrir. É possível pensar em senso de humor quando se trata de Deus?
De acordo com Baudelaire, é o Diabo quem tem mais senso de humor (risos). E, se Deus realmente é bem-humorado, é possível entender por que certos homens poderosos agem de determinada maneira. E se ainda a vida é como uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, como Shakespeare apregoa em Macbeth, é preciso ainda mais senso de humor para entender a trajetória da humanidade.

Como foi a exposição no Museu do Louvre, em Paris, da qual o senhor foi curador, no ano passado?
Há quatro anos, o museu reserva um mês para um convidado (Toni Morrison foi escolhida certa vez) organizar o que bem entender. Então, me convidaram e eu respondi que queria fazer algo sobre listas. “Por quê?”, perguntaram. Ora, sempre usei muitas listas em meus romances – até pensei em escrever um ensaio sobre esse hábito. Bem, quando se fala em listas na cultura, normalmente se pensa em literatura. Mas, como se trata de um museu, decidi elaborar uma lista visual e musical, essa sugerida pela direção do Louvre. Assim, tive o privilégio (que não foi oferecido a Dan Brown) de visitar o museu vazio, às terças-feiras, quando está fechado. E pude tocar a bunda da Vênus de Milo (risos) e admirar a Mona Lisa a apenas 20 centímetros de distância.

O senhor esteve duas vezes no Brasil, em 1966 e 1979. Que recordações guarda dessas visitas?
Muitas. A primeira, em São Paulo, onde dei algumas aulas na Faculdade de Arquitetura (da USP), que originaram o livro A Estrutura Ausente. Já na segunda fui acompanhado da família e viajamos de Manaus a Curitiba. Foi maravilhoso. Lembro-me de meu editor na época pedindo para eu ficar para o carnaval e assistir ao desfile das escolas de samba de camarote, o que não pude atender. E também me recordo de imagens fortes, como a da moça que cai em transe em um terreiro (para o qual fui levado por Mario Schenberg) e que reproduzo em O Pêndulo de Foucault.Ubiratan Brasil, enviado especial in Caderno 2 – Estadão

A seguir matéria publica no jornal Valor (clique nas imagens para ampliá-las)



"Alguma coisa está fora da ordem"

Resenha escrita por Dennis de Oliveira (Doutor em Ciências da
Comunicação pela USP, coordenador do curso de graduação em Jornalismo da Universidade Metodista de Piracicaba) Fonte: MM

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós modernidade. RJ: DPeA, 1999.

Stuart Hall é um dos maiores expoentes da corrente conhecida como Escola de Birmigham, ou "estudos culturais", conjunto de pensadores britânicos contemporâneos que, a partir de uma leitura do filósofo marxista Antonio Gramsci, fazem uma radiografia dos processos culturais contemporâneos, tendo como pano de fundo as mudanças societárias impostas pelo processo de globalização e a chamada cultura pós-moderna. Hall foi diretor do Centro de Estudos Culturais Contemporâneos da Universidade de Birmigham entre 1970 e 1979 e faz parte do corpo de fundadores deste importante instituto.

Este pequeno livro coloca os principais pontos do que os teóricos dos estudos culturais britânicos apontam como centrais para se pensar as relações sócio-culturais na era pós-moderna. O principal ponto de partida de Hall é a crise da noção de identidade e de sujeito constituída na modernidade - a idéia de um sujeito centrado, unificado e definido em termos de locus sócio-cultural se evanesce. Segundo Hall, "uma mudança estrutural está fragmentando e deslocando as identidades culturais de classe, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade - se antes, estas identidades eram sólidas localizações nas quais os indivíduos se encaixavam socialmente, hoje elas se encontram com fronteiras menos definidas que provocam no indivíduo uma crise de identidade".

O sujeito do Iluminismo, segundo Hall, "estava baseado numa concepção de pessoa humana como um indivíduo totalmente centrado, unificado, dotado das capacidades de razão, consciência e ação" (p. 10). Esta certeza, típica do período iluminista, na verdade não passa de uma construção discursiva que se legitima pela emergência e centralidade da ação política nos Estados-Nação. Assim, as identidades se articulam a partir do pertencimento a nações que subordinam as demais possibilidades de construção de subjetividades.

O processo conhecido como globalização traz como novidade um enfraquecimento do espaço do Estado-Nação como locus privilegiado da construção destas identidades. E o que se percebe hoje, é um desvelamento das limitações que esta concepção centrada de identidade construída pelo Iluminismo não se sustenta sem a centralidade da instituição Nação. "As nações líderes da Europa são nações de sangue misto: a França é, ao mesmo tempo, céltica, ibérica e germânica; a Alemanha é germânica, céltica e eslava; a Itália é o país onde gauleses, etruscos, pelagianos e gregos para não mencionar outros, se intersectam numa mistura indecifrável..." (p. 64). Por esta razão, Hall define que os conceitos de identidade são, na verdade, construções discursivas que só se legitimam a partir do momento que os contextos culturais assim o permitem.

O atual contexto cultural da pós-modernidade aponta para conseqüências contraditórias, segundo Hall. Primeiro, percebe-se uma desintegração das identidades nacionais pela tendência da homogeinização cultural da globalização; segundo, há um reforço das identidades nacionais e outras locais e particularistas em virtude da resistência ao processo de globalização e, como síntese deste choque, uma terceira conseqüência: as identidades nacionais estão em declínio mas novas identidades - híbridas - estão tomando o seu lugar.

Com estas afirmações, Hall nos dá pistas interessantes e inovadoras para compreender o atual contexto cultural. Distanciando-se tanto daqueles que consideram a inevitabilidade de uma total homogeneização cultural imposta pela globalização e também dos que defendem uma resistência simplesmente retornando ao discurso da identidade nacional do Iluminismo, o autor aponta que este choque dialético possibilita a construção de novas sínteses e perspectivas culturais que demandam desafios teóricos mais complexos para a sua compreensão mais global.
Atenção alunos da pós-graduação em Estudos da Mídia da UFRN,
para a aula da Profa. Kenia, do dia 12 de maio de 2010
serão debatidos os cap. 1. A identidade em questão e
5. O global, o local e o retorno da etnia

 

Programa de Publicações Digitais da
Cultura Acadêmica Editora
lança 44 títulos para download gratuito.

PROPG - DIGITAL
Esta coleção surge em função da tradicional parceria entre a Pró-Reitoria de Pós-Graduação da UNESP - PROPG - e a Fundação Editora da UNESP, ambas responsáveis pelo lançamento de centenas de títulos e novos autores da Universidade em outros programas editoriais com suporte em papel. Sintonizada com as tecnologias da textualidade eletrônica e também com a transmissão gratuita de conhecimento gerado nas pesquisas da universidade pública, a Coleção PROPG-DIGITAL é também a primeira experiência da Fundação com o livro digital e será importante laboratório de novas iniciativas nesta área que conquista gradualmente seu lugar no imenso universo de possibilidades da publicação e da leitura acadêmica.Veja alguns dos títulos abaixo:


O ciberespaço inaugura uma nova percepção do tempo e do espaço, e neste sentido parece pertinente falar, como o faz Levy de um universal aberto: "onipresença da informação, documentos interativos interconectados, telecomunicação recíproca e sem sincronia de grupo e entre grupos: o caracter virtualizador e desterritorializador do ciberespaço o converte em um vetor de um universal aberto. Simetricamente, a extensão de um novo espaço universal dilata o campo de ação dos processos de virtualização". Os processos de virtualização implicam em uma crescente desterritorialização de toda sorte de atividades. Dito de outro modo, as atividades financeiras, midiáticas e de informação só podem circular no ciberespaço se, ao mesmo tempo, reformulam suas práticas no sentido de desterritorializar-se.

Álvaro Cuadra é o autor do livro "De la ciudad letrada a la ciudad virtual". 

Atualização em 11/12/2009


A professora Graça Pinto destaca a notícia divulgada pelo blog DigitalismoComunicación y Poder de Manuel Castells pela Alianza Editorial, Madrid, España. Logo abaixo você encontra informações sobre o livro e a última entrevista, "Obama no se entiende sin la Red" que o catedrático concedeu ao jornal El País, traduzida pelo CEPAT e disponibilizada no site do Forum Nacional pela Democratização da Comunicação.


O livro, um tratado sociológico, lançado em inglês em junho passado, e agora em espanhol, tem 648 páginas e dá um enfoque inovador para a compreensão da dinâmica do poder na sociedade em rede, onde segundo Castells o consenso se configura com a comunicação. 


A Fundação EducaRed mantida pela Telefonica publicou o artigo (espanhol) "Comunicación, poder y contrapoder en la sociedad red: Los medios y la política", em junho de 2008 onde Castells antecipava alguns tópicos do livro. Para Hugo Pardo Kuklinski o livro será uma referência, assim como aconteceu com a trilogia sobre a Era da Informação. Segundo Kuklinski ninguém escreve sobre internet como Castells, com tanta dedicação, obsessão e rigor científico. "Ele não avança um passo sem argumentos precisos. E por isso, já avisou que este ensaio é uma teoria incompleta sobre o poder, já que o poder político é somente uma dimensão deste poder. Castells, nos avisa que internet não é publicidade, mas sim, comunicação, e isso é o que os políticos não entendem quando utilizam a internet para fazer campanhas." Sobre esse assunto veja o que Castells escreveu: "El mensaje es eficaz si el receptor está dispuesto a recibirlo y si se puede identificar al mensajero y éste es de fiar".

A grande expectativa do público leitor de Castells atualmente é pelo livro GEEKNOMIA que ele prometeu disponibilizar para download online, a partir de janeiro de 2010 (já estamos na fila) e que deverá ser um radar da produção na era pós-digital, como ele próprio explica: "desde la irrupción de Internet y la computación personal, los geeks son los nuevos escribas del mundo, capaces de crear los instrumentos que utilizan, o apropiarse de manera especial de los ya creados. Ellos configuran y la sociedad consume. Al comienzo del nuevo siglo, son los geek quienes están al frente del capitalismo. La geekonomía se hace fuerte en la construcción de las redes, y su clase social dominante, la netocracia, ocupa los lugares más relevantes en la economía globalizada, desplazando a políticos y burócratas." Castells acredita que a política e as redes burocráticas perderam poder em relação às redes sociais cidadãs, muitas delas globalizadas: "con la globalización multinivel, el estado se convierte en un nodo importante más de una red, la red política, institucional y militar, que se solapa con otras redes significativas en la construcción de la práctica social". Para ler mais clique aqui.

Entrevista El País - Manuel Castells (foto de SantiBurgos)


Quero perguntar-te sobre a solidão. Lendo o teu livro, há momentos em que pensei nisso. De saída, há um novo instrumento que se parece com o rádio em sua ubiquidade. O rádio foi o grande elemento que atenuou a solidão das pessoas. A internet veio para curá-la?


A resposta é diretamente sim. Não a elimina. Se alguém se encontra sozinho, se encontrará menos sozinho com a internet, mas se encontrará sozinho. Aí temos dados duros, são das coisas que sabemos. Temos dados duros do meu próprio estudo sistemático sobre a Catalunha há 5, 4, 3 anos, com análises de amostras representativas da população – 3.000 pessoas – em que isso está claro.


Analisamos os que tinham internet e os que não a tinham. Claramente, o uso da internet favorece a sociabilidade, diminui o sentimento de alienação e o que poderíamos chamar de sentimento de estar isolado. Por um lado, são pessoas mais sociáveis, mas, além disso, o sentimento de isolamento também diminui com o maior uso da internet.


A internet, ao contrário do que sempre se disse nos meios de comunicação, não é um instrumento que deixa as pessoas sozinhas com o seu computador, mas que, ao contrário, é cumulativo. Quanto mais sociável alguém é, mais utiliza a internet; quanto mais utiliza a internet, mais desenvolve a sociabilidade e tem menos sentimento de isolamento. Isso se reflete neste estudo. Todos os estudos realizados, em particular o World’s internet service, que foi feito com painéis a cada três anos nos últimos 10 anos, mostra a mesma realidade. Tudo vai na mesma direção. A internet é um instrumento para combater a solidão. Não para aumentá-la.


E o abuso não cria nas pessoas a ideia de que a vida está ali e não na rua? Não nos prende à cadeira da internet?


Os dados mostram justamente que quanto mais sociável, mais internet; quanto mais internet, mais sociável. Mais sociável quer dizer que as pessoas que utilizam a internet têm mais amigos, saem mais frequentemente, participam mais politicamente, têm maiores interesses e atividades culturais... Está comprovado inclusive por níveis sociais. Portanto, não. Empiricamente, a resposta é claramente não. A internet expande o mundo.


Aí surge outra pergunta: o que acontece quando passas toda a vida na internet, fechado na tua casa? Acontece a mesma coisa que quando jogas um videogame ou lês um livro na tua casa 15 horas seguidas por dia. Se há gente assim, a internet não vai solucionar o seu problema. É um instrumento que amplia o mundo em vez de encolhê-lo, empiricamente.


O que a internet te proporcionou?


Fundamentalmente, a capacidade de pesquisar da maneira que nunca pude fazer. A capacidade de estar informado ou de poder estar informado simultaneamente em que as coisas acontecem no mundo, do que aconteceu no mundo ou do que aconteceu há cinco mil anos. Na internet temos a capacidade de acessar todas as informações e todas as expressões culturais produzidas no planeta desde que o mundo é mundo.


Para um pesquisador, a internet é preciosa porque em grande medida não necessitas de biblioteca. Para os pesquisadores em ciências sociais, mas também para os pesquisadores de outras áreas, o fundamental é poder acessar as pesquisas mais recentes. Acabei as pesquisas sobre o meu livro há um ano e o imprimiram rapidamente, mas mesmo assim demorou. Um pesquisador necessita estar a par do que acontece em cada momento, tanto nas ciências sociais como em qualquer outro tipo de ciência porque as mudanças científicas são tão rápidas que podes estar repetindo coisas sem sabê-lo.


Agora, com a internet, se sabes onde buscar – o que é a grande condição – e o que buscar, podes estar sempre atualizado.


Segunda coisa. Me permitiu estar em comunicação ininterrupta – já falando pessoalmente e de mim – com qualquer pessoa com quem quero estar em comunicação, cada minuto, cada dia. Minha filha vive em Genebra, a filha da minha mulher na Sibéria, dois netos em Genebra, outra neta em Los Angeles, minha mulher e eu viajamos muito. Sempre estamos em contato. A família está absolutamente em contato. Minha irmã mora nos arredores de Barcelona, esteja onde estiver, sempre estamos em contato. Com a minha filha falamos diariamente. Não apenas por e-mail, mas pelo Skype, gratuitamente.


De que qualidade é essa comunicação que estamos construindo?


É uma comunicação muito mais intensa porque podemos falar muito mais intensamente, o que não exclui que se a minha filha vivesse na minha cidade ou ao lado, eu a veria pessoalmente, claro. Também o faria pela internet. A comunicação de banda mais larga é, obviamente, a interpessoal, cara a cara, porque há outros níveis de comunicação que não simplesmente as palavras: a estrutura gestual, o olhar... Mas não se trata de opor uma à outra, mas de somá-las e, sobretudo, de, lá onde não podemos chegar com a nossa presença física, poder chegar sempre com um outro tipo de comunicação. E, sobretudo, a que é possível para a imensa maioria da humanidade neste momento.


Te diziam que deveríamos aprender dos norte-americanos porque estão muito mais avançados na utilização desta ferramenta, que nasce por ali. O que temos que aprender? O que nos falta? Imagino que esta ferramenta, sem uma educação secundária suficiente e sem uma educação mais profunda, seja uma ferramenta que podemos inutilizar, ou não saber utilizar.


Primeiro, não creio que tenhamos que aprender dos americanos. Creio que o mundo tem que aprender uns dos outros porque as taxas de difusão da internet no norte da Europa são mais altas que nos Estados Unidos. Mesmo que na internet – a velha tecnologia que começa a ser empregada em 1969 nos Estados Unidos, mas que depois, a partir de 1990, se difundiu por todo o mundo –, neste momento, o maior pacote de internautas – mais de 300 milhões – seja de chineses. A língua da internet não é o inglês; apenas 28% dos websites feitos na internet são em inglês. Ou seja, é um fenômeno absolutamente universal.


Portanto, não temos que aprender internet. Vivemos com a internet, não na internet. A utilizamos para trabalhar, para nos relacionarmos entre nós, para ler os jornais... Pessoalmente, não conheço ninguém que leia mais o jornal impresso do que o digital, o que coloca alguns problemas à imprensa escrita. A internet não serve para ver os jogos do Barça quando são transmitidos para o outro lado do mundo...


A banda larga ainda não dá a qualidade das jogadas...


Ah, não! Mas também não tens isso em campo ou vendo o jogo pela televisão, mas está chegando. O que quero dizer é que a internet é nosso contexto de comunicação, é o que temos, é o que vivemos, não é uma coisa estranha, é como pensar como vivemos com eletricidade. Nem pensamos nisso. Para os jovens de 20 anos, para não falar das crianças de cinco anos, o mundo é a internet. Não se concebe outro mundo que o da internet.


A questão da pouca familiaridade com a internet se resolve quando a minha geração desaparecer. Essa é a brecha digital, gente da minha idade ou inclusive um pouco mais jovem. Quando por lei biológica desaparecermos de cena ninguém se colocará os problemas que nos colocamos agora sobre se a internet é de um jeito ou de outro. É o que respiramos, é o que fazemos. Já demos o salto e ninguém mais pode se colocar a questão de se fazemos ou não internet.


O tema que colocavas, o que é central, o que acontece na inadequação entre o nível de educação, cultural ou geral? Há duas questões. Uma, utilização que não é necessariamente para questões de buscar informação e combiná-la para obter conhecimento e aplicá-lo. O que dizem as pessoas: cursos para aprendizagem da internet. O quê? Colocar o dedo aqui... Isso se aprende em meia hora.


O problema é, uma vez que sabes, o que fazes na internet? Para comunicar-se não há nenhum problema, para ninguém, qualquer que seja o seu nível cultural. Fica encantado em comunicar-se. Nas periferias operárias de Madri ou Barcelona desenvolveram, para tirar o medo que as pessoas idosas têm da internet, programas em que as crianças ensinam aos seus avós a como usar o correio eletrônico e assim podem estar conectados.


A comunicação entre as pessoas, essa já é uma realidade. Para a utilização da internet como meio de informação e comunicação tampouco faz falta algum tipo de treinamento. Pois bem, o grande problema que se coloca na sociedade é que como é uma ferramenta tão potente de acesso à informação, a qualquer tipo de informação, saber o que se busca, onde, como se busca, para quê se busca e o que fazer com isto em nossa vida requer um nível cultural. Aí entra a educação. A divisão mais fundamental na história da humanidade, muito mais que as classes, mesmo que de modo geral haja uma correlação, é a divisão entre quem sabe e quem não sabe, quem sabe e quem não sabe ler, quem entende o mundo e quem não o entende. Níveis culturais educativos. Essa é uma divisão fundamental.


Aí sim é certo que, tanto na população em geral como entre os jovens, quanto mais educado estás mais sabes o que a internet pode oferecer para a tua vida e mais a podes utilizar, desfrutar e mais te ajuda a se desenvolver. O tema está muito claro. Em termos de políticas, a educação é central. Em uma sociedade com internet é muito mais importante do que nunca na história o desenvolvimento de uma prioridade absoluta para a política educativa. Não apenas para integrar a internet na educação, ao contrário, para que as pessoas sejam suficientemente educadas para poderem utilizar as extraordinárias possibilidades abertas pela internet.


Como o poder está utilizando a internet? Para que lhe serve? Como mudou a relação do poder com a sociedade graças à internet?


Se estamos falando do Estado, que é apenas uma das formas de poder, os Estados têm medo da internet, diretamente, porque perderam o controle da comunicação e da informação sobre as quais se baseou o poder ao longo da história. Mas há um problema. Por outro lado, a internet é extremamente útil para a economia, bem utilizada para a educação, para os serviços públicos, para a informação. Mas, por outro lado, não podes ter um pouquinho de internet, tens que ter internet na plenitude de sua capacidade autônoma de comunicação.


Não se pode interferir na internet. Pode-se fechar um servidor. Abre-se outro servidor. Caso contrário, que se pergunte aos iranianos que tentaram fechar o país a sete chaves durante uma semana e não o conseguiram porque sempre há formas de chegar a um servidor que não está no território desse país. Ou quando a Espanha tornou a vida impossível ao “Acrópolis”, um dos sítios da internet em espanhol. O “Acrópolis” simplesmente mudou o servidor para Nova Jersey.


Atualmente, o Estado tem um grande problema com a internet porque perdeu a capacidade de informação e comunicação. O que fazem então? Vigia-se a internet, entra-se na privacidade das pessoas, mas isto sempre ocorreu, não é novo. Claro que não há privacidade na internet e os governos sem querer podem entrar em todos os nossos correios eletrônicos, em tudo o que fazemos porque sempre fica um registro digital. Teoricamente, países democráticos como a Espanha necessitam de uma ordem judicial, mas na prática cada vez que um governo quer fazer algo usa os recursos legais disponíveis. Caso não conseguir, recorrem aos ilegais. Todos os governos em todo o mundo.


O que acontece então? Nos vigiam. Sempre foi assim. A novidade é que nós podemos vigiá-los também. A novidade é que qualquer ministro, personalidade, banqueiro ou qualquer pessoa que esteja fazendo algo que não gostaria que se tornasse público, qualquer pessoa que ande com um celular pela rua pode filmá-lo e exibi-lo no Youtube em cinco minutos e isso estará nos telejornais da noite imediatamente. Foi isso que aconteceu repetidas vezes nos últimos anos. Invadem a nossa privacidade, sim, mas também podemos invadir a privacidade dos poderosos, temos armas relativamente iguais.


O outro problema é que se exagera na capacidade de controle da internet. Tecnicamente, materialmente, como se faz? Nós estudamos a China neste aspecto. Em teoria, podem controlar tudo, mas na prática não vão ler cada um dos milhares de milhões de mensagem enviadas. Isso é feito por robôs. E como funcionam os robôs? Com sistemas de análise automática de conteúdo. Palavras-chave. A maioria dos chineses que se comunica não se interessa pela política, os que fazem pornografia também o fazem com cuidado, como aqui, mas fundamentalmente as pessoas vivem sua vida na internet sem se preocupar muito.


Aqueles que se preocupam mais com a política já sabem que não podem dizer palavras feias, como democracia, Tiananmen, Tibet, Taiwan... nenhuma dessas coisas que imediatamente o robô entende.


Nos tempos da transição à democracia, nos últimos anos do franquismo havia quase imprensa livre na Espanha. Claro, não podias dizer: “O sanguinário regime da ditadura franquista”, mas podias dizer a mesma coisa utilizando outras palavras e nenhum robô de censores tomava conhecimento.


Tu sabes disso porque tinhas um tio censor.


Exato.


Fizeste um blog com algo assim.


Bom, um blog, uma multicopista.


Que era como um blog de então.


Meu blog de tinta violeta.


O que quero te dizer é que os estados perderam cotas de controle e de poder com a internet, e isto está muito claro. Aumentaram a capacidade de invadir a nossa privacidade, mas nós também [temos a capacidade de invadir] a privacidade deles. Em termos relativos aumentaram extraordinariamente os graus de liberdade das pessoas em relação ao Estado, em relação ao poder em geral.


Isto quer dizer que as pessoas que não têm acesso às instituições de poder na sociedade, as grandes empresas ou os meios financeiros, os cidadãos simples, para nos entendermos, incrementaram a sua capacidade de poder porque podem organizar a comunicação do que pensam, o debate e por sua vez as mobilizações de forma autônoma aos mecanismos de controle do poder do Estado.


Nesse sentido, a internet abriu esferas de liberdade que não tínhamos antes. Agora, liberdade sem conteúdo. Mais livre, para mim é um valor, mas não garante os usos da liberdade. E os usos da liberdade podem ser para causas que alguns podem considerar nefastas. Mas somos mais livres. A questão é como administramos essa liberdade. Assim como dizíamos que a internet sem educação é uma internet tonta porque não sabes muito bem o que fazer, pode ajudar um pouco a sair da ignorância, mas está limitada; igualmente, uma internet livre com indivíduos que utilizem essa liberdade para autodestruir-se ou destruir os outros é uma internet que pode majorar as tendências negativas.


A grande questão da internet é que é um espelho de nós mesmos. Amplifica o que somos, para bem ou para mal.


Dizes em algum momento do livro que somos anjos e demônios.


É que somos o que somos.


Custa pensar que o poder não busca uma maneira de neutralizar essa liberdade que os cidadãos têm agora em estado puro. O que fizerem com a liberdade, como comentas, já é outra coisa porque a rede se encheu de mentiras, falsidades, calúnias e de anônimos.


A imprensa também, certamente, mas está mais controlada.


Como o poder se defende da criação dessa liberdade? Dizes que o poder é muito mais que comunicação e comunicação é muito mais que poder. Há aí como que um choque de trens muito importante.


Exato. Sempre pensando que eu falo em termos de poder tanto dos de cima como dos de baixo. A internet incide nas relações de poder incrementando o poder dos que tinham menos poder. O que não quer dizer que os que controlam o Estado, as grandes empresas, estejam diminuindo o seu poder. Não. Têm menos poder sobre os cidadãos, mas ainda têm o essencial.


Como reagem? Tentando esgotar o mais possível os espaços de liberdade. Por exemplo, a grande questão que se coloca nos Estados Unidos e que na Europa é menos intensa, é como as grandes corporações de telecomunicações, as operadoras, estão tentando conseguir o que se chama uma internet neutra, isto é, que dá maior banda larga, maior capacidade, maior velocidade, melhor qualidade de acordo com o pagamento pelo serviço. Mesmo que isso se dê às custas de deixar sem o serviço ou com serviço de muito baixa qualidade uma grande proporção de cidadãos.


Com isto há uma enorme batalha, foi um assunto da campanha de Obama e Obama nomeou presidente da Comissão Geral de Comunicações um dos líderes desta campanha para a neutralidade do uso da internet. Na Espanha temos uma excelente Comissão de Mercado de Telecomunicações que vela para evitar práticas monopolísticas das operadoras, em princípio.


Isto é um método. Outro é tentar censurar, e já vimos que isto é bastante difícil. Outro ainda é tentar fechar servidores, um método mais importante, mas que ao mesmo tempo tem o problema para os controladores de que sempre se pode desviar o tráfico por outros circuitos internacionais. E outro método é tentar introduzir uma série de legislações que são pretexto para outras coisas e que no fundo é para controlar a internet: pornografia infantil, controle da pirataria... Este tipo de legislação tem como objetivo último, não tanto a proteção das crianças, mas o controle sobre a internet. Pode tornar a vida muito difícil aos provedores de serviços mas, insisto, há uma comunidade internauta no mundo com 1.7 bilhão de usuários que sempre encontram formas de driblar o que os governos tentam controlar.


Eu participei de muitas comissões de internet nos últimos 12 anos na União Europeia e em outros países e a primeira pergunta em qualquer Comissão dos Governos é: como podemos controlar a internet. A minha primeira resposta é: não se pode. E a partir daí cai o interesse na Comissão.


É que não se pode tecnicamente, ao menos, fechar. É preciso desligar fisicamente a conexão.


Dizias que pensar agora em deixar a internet é como pensar em abandonar a eletricidade. Em algum momento dá a impressão também de que quiséssemos deixar o ar, porque agora mesmo a liberdade que a internet dá se parece com a liberdade do ar.


A liberdade de respirar. Por isso são batalhas de retaguarda de uma velha ordem que segue andando, mas que está morta. O que acontece é que os suspiros dessa velha ordem do controle informacional podem ser muito perigosos para muita gente. Por exemplo, para os provedores de serviços de internet, que podem arruiná-los e tornar a sua vida impossível. Pode ser também complicado para a expressão da nova cultura digital que requer um nível de criação em que possas criar teus próprios produtos, não em que possas baixar vídeos protegidos por direitos de propriedade. Não. Teus próprios produtos de intercâmbio cultural. Pode ser um problema para produzir teus próprios textos, teus próprios pontos culturais sem nenhum tipo de limite para os direitos autorais.


Quer queira ou não eu tenho que pagar à Sgae [Sociedad General de Autores y Editores]. Construiu-se todo um sistema de interesses corporativos, diria que quase medievais, que vão frear durante muito tempo a livre comunicação dos produtos culturais.


O digital também vai varrer inteiramente o papel?


Não, absolutamente. Infelizmente. Digo infelizmente porque estamos desmatando o planeta. A constatação empírica atual é que quanto mais se expandiu a internet e a informática mais papel se gastou, proporcionalmente aos processos de informação, porque por alguma razão ainda fica uma parte em papel. A produção em papel, proporcional à enorme massa de informação digital que se produz, é pequena, mas o volume é muito maior do que antes da era digital.


Estou fazendo esta entrevista para um jornal digital e de papel. Quando essa entrevista seria feita apenas para o suporte digital?


Na verdade, nunca faço previsões porque sempre me engano, mas a realidade é que, além disso, as demais previsões também se equivocam. Será feito apenas no formato digital no dia em que a edição em papel for um produto de luxo que apenas as elites culturais, que apreciam um prazer que eu compartilho, do barulho do papel no café da manhã e o café fumegante, podem se permitir. Quando for preciso pagar 10 euros por um jornal, te garanto que a maior parte dos leitores vai migrar para a web.


Em que momento desse porvir estamos?


Estamos no momento decisivo porque temos uma crise econômica muito profunda em que nem as empresas jornalísticas têm recursos, nem as pessoas se podem dar o luxo de comprar em papel o que podem fazer na web. A ideia é, como fez o El País há alguns anos, fecharmos a web e restringir o acesso à assinatura, isto é, a alguma forma de pagamento. Imediatamente os leitores diminuíram de 100.000 para 25.000 em questão de poucos meses, tiveram que mudar e montar um outro modelo através de publicidade, de serviços indiretos, de serviços de arquivo... Há uma série de modelos interessantes nesse aspecto. Diria que neste momento estamos em um ponto de aceleração para o jornalismo digital.


Nessa parte de anjo e demônio que tens, se fosses o advogado do diabo do papel, portanto, acusador da internet, o que perderíamos perdendo o papel?


A nostalgia, porque não vais poder convencer as crianças de cinco anos de uma coisa que fundamentalmente serve para carafunchar.


No livro falas de alguns elementos que o poder, analógico e digital, utiliza: a mentira, a manipulação, a suspeita... e relacionas isso com o trabalho de George W. Bush para produzir o clima que tornou possível a guerra no Iraque. A novidade, esse ar que impulsiona a novidade, tornará a manipulação mais difícil?


Sim, mas não completamente. Sim, no sentido de que a informação pode circular muito mais rapidamente. Sim, no sentido de que os cidadãos podem intervir muito mais amplamente no debate. Não, no sentido de que, como mostro no meu livro, as pessoas acreditam no que querem acreditar independentemente da informação que receberem.


Há, mais ou menos, cinco vezes maior capacidade de registrar uma informação que gostaria que fosse afidedigna que a contrária, por mais convincente que a outra seja. No caso concreto de Bush, a base era que as pessoas tinham medo, por razões obvias. Se mandaram as Torres Gêmeas pelos ares, estão matando milhares de pessoas e há terrorismo no mundo, tens medo. Sobretudo, um país como os Estados Unidos que não havia sofrido terrorismo e que não havia tido guerras a não ser a do Havaí ou sua própria guerra de Secessão.


Aí se cria um clima de pânico que é de-li-be-ra-da-men-te aproveitado por estrategistas políticos de altíssimo escalão para manter e incitar ao medo. Além disso, ao medo insidioso, ao terrorismo que não se sabe de onde vem e para criar uma série de políticas com palavras – as palavras são fundamentais –, tais como: “a guerra contra o terror”. É uma guerra, estamos em guerra, uma coisa obscura, não se sabe o que é o terror.


As palavras são fundamentais porque são o ponto de entrada para as metáforas e as metáforas não são uma coisa literária, estão organizadas fisicamente em nosso cérebro. Nosso cérebro funciona em metáforas a partir de associações com experiências. As palavras que ativam as metáforas, que ativam emoções, que ativam decisões. É isso o que dizem os estudos experimentais.


Nesse sentido, a capacidade de manipulação dos políticos, de um lado ou de outro, é de ativar e desativar palavras, imagens, temas... que ativam as metáforas que vão em um sentido ou em outro segundo o interesse em questão. Por isso, dizia, o que a internet faz é, realmente, ampliar o marco de comunicação e de informação e abrir o jogo. Isso não vai mudar a possibilidade de que se tu tens medo, a própria existência da internet pode multiplicar as possibilidades de acessar imagens que ativem o medo.


Diferença? Em um mundo dominado pela televisão, podes receber imagens que vão quase todas no sentido de ativar esse medo. Em um mundo livre da internet podes ter imagens suficientes de outro sentido para ativar teus outros elementos metafóricos de diminuir o medo e aumentar a confiança.


Foi isso que Obama ativou de maneira muito hábil. É impossível entender o Obama sem a internet. Demonstro no meu livro que não foi só pela internet, mas sem a internet o Obama não teria sido eleito.


Falando do papel da imprensa, assinalas que não há um modelo de negócio. Vislumbras algo nesse sentido? Crês que poderemos subsistir como jornalistas sem ter que pedir pelas esquinas, oferecendo tudo gratuitamente, não podendo viajar porque ninguém nos paga? Como vamos subsistir como jornalistas se não podemos cobrar das pessoas pelos conteúdos?


Não se deve confundir a plataforma com o jornalismo profissional. O que é mais complicado é manter, em um mundo de internet e de publicação pela internet, o jornalismo impresso. Mas pode haver um jornalismo absolutamente florescente, profissional e bem pago com outra plataforma. Não digo que o papel vá desaparecer, digo que não é a mesma batalha a defesa do papel e a defesa do jornalismo profissional nos termos em que foi se construindo historicamente.


É preciso acostumar-se com a diversidade de plataformas, que podem ser algo em papel, muito na internet, muito mais em distribuição de informações pelos celulares, muito mais em dossiês que as pessoas fazem. Atualmente, as pessoas não leem um jornal, utilizam a técnica RSS para procurar algum assunto na internet. Se no momento me interessam os temas relacionados à corrupção política ou imobiliária na Espanha, vou atravessando diversos meios de comunicação em base a palavras-chaves e construo o meu próprio texto. Não recebo um texto em pacote de um jornal nem olho todo o jornal, mas construo o meu próprio jornal. É isso o que já está acontecendo.


Nesse sentido, pode haver uma plataforma diferente, eu diria uma multiplataforma que é onde estamos lendo, sem ser ao mesmo tempo muito profissional. O que resta ao jornalista? Duas coisas: a credibilidade e a profissionalidade. O oceano de informação da internet, por definição, não pode conter todo crível. Portanto, se introduz a dúvida do que é crível ou não. Há coisas muito confiáveis, outras não, outras pura invenção mas o que há é a interação através da qual as pessoas vão corrigindo às vezes essa informação, meu método wiki. O jornalismo profissional, os meios profissionais ainda guardam um capital de credibilidade.


Por outro lado, a qualidade da informação depende em boa parte da formação profissional da qualidade do profissional. Aqui não é fácil competir com os blogueiros do mundo, em relação aos quais vocês são jornalistas em formação, com ética profissional, com trabalho acumulado, com experiência, com conexão, etc. Creio que aí há um núcleo muito forte.


Pois bem, o que acontece? Que por outro lado, essa credibilidade e profissionalidade tem que ser respeitada pelas empresas da comunicação e, paradoxalmente, os jornalistas profissionais têm um aliado potencial no mundo desordenado dos blogs. Antes vocês podiam dizer: olha, esta informação é melhor não colocar. Agora não vão poder dizer isso porque a informação já está na internet. Se se está falando de algo na internet, não podem ignorá-lo. É uma atitude suicida do ponto de vista da empresa.


O que têm que fazer é tomar essas informações, esses rumores e situá-los em um pacote diferente, muito mais objetivo, tratando-o profissionalmente, etc. Portanto, canalizando e articulando o trabalho profissional de vocês com o mundo dos blogs, que tentam intervir desordenadamente no mundo da comunicação, e servindo-se disso como contrapoder às pressões políticas ou empresariais, que sempre foram o grande problema para o jornalismo profissional.


Em um mundo de amplitude de informação, mas sem controle de qualidade e de pressões políticas e econômicas tremendas sobre a objetividade jornalística, o papel do jornalismo profissional se incrementa, se torna mais necessário para os dois sentidos. Mas é um papel difícil, sempre é preciso considerar que os jornalistas não são heróis e que a sobrevivência diária pode levar à existência de dois tipos de jornalistas: os que guardam a objetividade, mas não o emprego, e jornalistas empregados que têm que transigir diariamente.


Uma reflexão tua diz que se as relações de poder se constroem na mente através dos processos de comunicação, estas conexões ocultas muito bem poderiam ser o código fonte da condição humana. Quer dizer, teu livro às vezes também me soa a ontologia, é uma busca do que é o ser humano em virtude de que o poder e a comunicação formam parte da constituição da sua mente. O ser humano quer poder e ao mesmo tempo quer comunicar o que faz para ter poder.


Muito bem observado. Isto já entra no terreno hipotético. A maior parte do livro está empiricamente sustentada e com métodos que podem contrastar as análises com dados sólidos. A partir daí há extrapolações muito mais de exploração, e um deles é este.


A ideia é a seguinte: o tipo de relação mais importante é o poder – para mim é o mais importante porque de quem tem o poder e como o tem se definem as regras do jogo e tudo o mais depende de em que situação de poder nos encontramos uns com os outros e como foram se construindo. Se o poder é fundamento da sociedade, é uma visão um pouco tradicional-filosófica mas não é construída por anjos, mas por relações de poder e por isso vai mudando, infelizmente.


Mas o poder se constitui sobretudo em nossa mente porque a forma como pensamos determina o que fazemos e o que fazemos favorece estes ou aqueles interesses em termos de poder. A ideia aqui é que o essencial da condição humana é a comunicação e o essencial da organização humano é o poder. Na conexão entre poder e comunicação através de nossas mentes individuais e coletivas talvez seja onde podemos encontrar o segredo de como se organiza a condição humana, em que sentido e em função de que nos destruímos ou, ao contrário, nos expressamos em condições de criatividade extraordinária.


Em algum momento citas, e talvez seja interessante dada a tua condição de manchego-catalão-californiano do mundo, uma frase de Ulrich Beck sobre a nação: “Libertar os conceitos básicos da sociedade moderna, das fixações do nacionalismo metodológico”. Em que momento estamos em se tratando do patriotismo? Todas estas coisas que nos fazem mais globais, mais universais, mais locais também, mas mais interconectados, o que fazem com o patriotismo? Deixam-no num broche ou o sentimento tão arraigado em algumas sociedades está se diluindo graças ou à mercê das redes?


Por um lado, metodologicamente, não podemos pensar as sociedades, como todas as ciências sociais o fizeram até agora, partindo do que é um país, um território delimitado pelo Estado-nação. E em termos de poder, o sistema político é um sistema de Estados-nações. O que Beck diz, com razão, é que é um momento em que as relações de poder se constroem globalmente, no econômico, no cultural, nas relações entre Estados, nas relações entre movimentos sociais... Ou seja, o âmbito do poder, o âmbito da construção política é um âmbito global.


Todas as ciências sociais, estudos eleitorais, análises... se construíram, e seguimos assim, dizendo: eu estudo a Espanha. A ideia é: não podes estudar a Espanha se não estudas as relações globais e locais da Espanha. Em termos metodológicos, as ciências sociais têm que sair do Estado-nação como definição de unidade de análise. Mas isso é diferente do que acontece com a nação, do que acontece com o Estado-nação e do que acontece – teu tema – com o patriotismo.


Mantenho – porque cada vez foi se acentuando – a análise que apresentei e documentei na minha trilogia e em particular no meu livro O poder da identidade, em que o essencial do mundo é constituído, por um lado, por redes globais de poder, tecnologia, finanças, economia, comunicação... e, por outro, identidades cada vez mais locais, regionais e na-cio-nais também. Nesse sentido, o patriotismo é, atualmente, muito mais importante do que o sentimento de classe, por exemplo, ou que outros tipos de identidades anteriores.


Com o patriotismo, dependendo dos países, entramos na outra discussão. Por exemplo, na Espanha há nacionalismo espanhol e patriotismo espanhol, mas também há um nacionalismo catalão, basco ou galego com seus respectivos patriotismos. A identidade mais forte, em geral, no mundo é local-regional mais que nacional.


O sentimento de pertença a uma nação, a uma região, a uma localidade é um dos fundamentos básicos sobre os quais se estrutura a sociedade hoje em dia. E aqui temos a contradição: vivemos em um mundo global cada vez mais identitário ao mesmo tempo. É o problema essencial da União Europeia. A União Europeia é uma instituição não democrática porque os cidadãos não a querem. Querem-na para resolver problemas, para resolver a economia, mas não se sentem membros de uma coisa chamada Europa. Os governos não a querem porque lhes tira poder, mas instrumentalmente necessitamos dela.


Dizer que o patriotismo é cada vez mais importante não quer dizer necessariamente, em nosso contexto, o patriotismo espanhol nem o patriotismo catalão. Os dois. Diria que houve um aumento considerável do nacionalismo e do patriotismo tanto na Catalunha, País Basco ou inclusive na Galícia, como no espanhol, incluídos os territórios em que emergem outros nacionalismos.


Isto é cada vez mais importante, não menos. E aí estou em contradição com a ideia de Ulrich Beck. Estou de acordo com a sua forma de análise, não estou de acordo com suas conclusões, de fato mais normativas que analíticas, que dizem que a contradição entre Estados-nação em que vivemos, em um sistema global no qual também vivemos, só se pode resolver com um governo global e uma cultura cosmopolita.


Não me parece mal, me pareceria perfeito, só que os dados vão no sentido contrário. Não se vê, não há consciência cosmopolita. Não há cidadãos do mundo. As pessoas não se consideram cidadãs do mundo, em absoluto. Só algumas elites. Há uma correlação perfeita: quanto mais elite, mais proporção de cidadão do mundo. Quanto mais pobre, mais dominado, menos educado, mais te agarras à tua terra, ao teu Estado-nação, ao que tens, porque nas redes globais estás perdido.


E tu és de onde?


Se tenho alguma raiz é mais da Catalunha. Me honra muito que me considerem da Mancha, mas morei ali apenas um ano, o primeiro da minha vida, e nunca mais retornei.


Como Almodóvar.


Pois é, por aí vai o assunto. Depois morei em vários lugares, mas a minha formação de adolescente, de jovem, foi em Barcelona. Acrescente-se a isso que depois fui – melhor, fui obrigado a ir – aos 20 anos e morei 17 anos em Paris, e 30 anos entre a Califórnia e a Espanha, mas sobretudo a Califórnia. Se me dizes onde me encontro melhor no mundo: para trabalhar, na Califórnia, para viver, em Barcelona.


Mas não sou cidadão do mundo. Sou cidadão sentimental de várias localidades, sou “multilocal”, não global.


Há anos, quando ninguém acreditava nisso, Juan Cueto dizia que agora estamos diante de muitas telas. Acreditávamos que a tela que iria permanecer seria a tela do televisor e nos enganamos. Agora há outras telas.


É isso aí. E as trazemos cada vez mais em nós. De fato, somos uma multiplataforma de comunicação.


Mesmo que chames a televisão de “a eterna companheira”.


Claro, porque é o contexto comunicativo. Mas já não é só a televisão, é tudo ao mesmo tempo. Somos uma multimídia perambulante.


Arrepia ler a seguinte reflexão sua: “As pessoas se matam pelo que sentem: hostilidade étnica, fanatismo religioso, ódio de classe, xenofobia nacionalista, raiva pessoal...”. Passaram-se muitos séculos, estamos no umbral de uma nova era, que defines muito bem neste livro. O homem mudou? Em que mudou ou por que não mudou?


Mudou em muitíssimas coisas. Na capacidade de desenvolvimento tecnológico, de superar as doenças, aumentar a cultura... Em todos os assuntos relacionados ao progresso da humanidade é evidente que fizemos mudanças extraordinárias e aprendemos a criar ao menos regras do jogo que nos permitem coexistir. Mas não mudamos em algo fundamental: são as emoções que determinam o nosso comportamento. Isso está em nosso cérebro.


Vivemos no mito do progresso e o Iluminismo que, com seu espelho simétrico no mito do homem soviético, do homem comunista – bom, já faz tempo que desapareceu – partia da ideia fundamental de que era preciso arrancar as pessoas de sua primitiva identidade, ou de suas emoções, para construir algo novo que se definia a partir do Estado e se davam identidades do Estado: és um cidadão. Bom, francês, vale. Mas o importante é que és cidadão, não és bretão, não és mulher, não és negro... és cidadão.


Não conheço nenhum cidadão. Conheço pessoas com muitas características próprias e as pessoas seguem se vendo assim. Cidadão é uma dimensão instrumental para delegar o poder político a alguém que nos administre. Mas como as pessoas acreditam cada vez menos nisso, cada vez pensam mais que essa delegação está vazia de conteúdo. Então se sentem cidadãos, mas não sentem que vivem em uma cidadania. Portanto, essa identidade também cambaleia.


O que resta então? Nossa família, nossa cultura, nossa religião, nosso território... E em momentos em que há crises e tensões, a primeira coisa é definir-se como “eu”, mas definir-se como “eu” é definir-se contra o “outro”. Com a minha análise, já há dez anos, o que fui demonstrando é que, concretamente, o mundo que vivemos em vez de ver a emergência do homem e da mulher cosmopolita, o que vemos é a emergência de culturas, que quando se intercambiam, hibridizam e mestiçam são um instrumento, uma ocasião de extraordinária riqueza. Mas que quando não se comunicam, se fazem trincheiras de oposição e em último termo de violência.


Restabelecer os canais de comunicação entre as pessoas, e não verticais, é em certo modo a única defesa contra a barbárie de ódios entre culturas.


Por isso dizes que quando vemos vida, vemos redes.


Vemos vida, vemos rede e vemos comunicação. A comunicação é a vida. Sem comunicação é a destruição.


Dizes: “Como não somos capazes de reinventar Hollywood por nós mesmos, usamos a internet para nos relacionarmos socialmente”, e acrescentas que o grande erro do Second Life, por exemplo, é não ter criado a utopia. Onde está utopia?


Em nós. É o que nós podemos inventar. Mas não tu e não eu, mas juntos e com outras pessoas ir construindo em nossas mentes outras formas de se relacionar. A utopia são as cooperativas de produção e consumo que explodem não apenas por todas as partes na Espanha, mas no mundo em geral. A utopia são as redes de troca que existem atualmente de serviços, de bens, de produtos. É plantar teus tomates e tuas alfaces e consumi-los. É inventar uma cidade cada vez mais baseada na bicicleta e não no automóvel... A utopia é crermos realmente que podemos viver de maneira diferente. Mas temos que ser muitos os que acreditamos nisso, não uma pessoa.


Por isso, a apropriação de Hollywood a nível individual fragmenta, destrói a comunicação. Paradoxalmente, Hollywood é um obstáculo à comunicação, mas nós temos que reconstruir outras formas de comunicação que levem a utopias que não são impossíveis, mas que são antecipações da vida que podem ser possíveis e que não ainda não existem.


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